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A recente história política do Brasil deveria ter sido levada em consideração pelos caciques do PSD, o partido do primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro. E não faltaram alertas nesse sentido, quando a agremiação optou por abraçar bandeiras defendidas pelo Chega, de extrema-direita, sobretudo no que se refere à imigração. Vários dos movimentos feitos pelo Governo no sentido de restringir o ingresso de imigrantes no país só foram levados adiante graças ao apoio da legenda presidida pelo radical-populista André Ventura.
Voltemos ao Brasil. Quando do surgimento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018, partidos de centro-direita viram no então deputado — que, em 30 anos de mandato na Câmara Federal nunca havia apresentado um projeto sequer em benefício do país — uma forma de enterrar qualquer possibilidade de a esquerda voltar ao poder por meio do Partido dos Trabalhadores (PT), de Luiz Inácio Lula da Silva, que havia sido preso e impedido de concorrer nas eleições daquele ano.
A maior parte dos líderes dos partidos de centro-direita preferiu tapar o nariz e abraçar Bolsonaro, que acabou eleito. Já empossado no Palácio do Planalto, aos poucos, o grupo liderado pelo então presidente deu início a um movimento deliberado para implodir o que se chamava de direita civilizada. Primeiro, dissolveu o PSL, partido pelo qual Bolsonaro havia sido eleito. Depois, destruiu o PSDB, que tinha governado o Brasil por dois mandatos com Fernando Henrique Cardoso. Hoje, o PSDB é um nanico que ainda apoia, sem pudores, a bandeira da ultradireita.
O golpe que bolsonarismo deu na direita civilizada foi tão profundo, que, hoje, não há nenhum candidato desse espectro político capaz de ocupar um espaço de destaque na disputa pela Presidência da República que se dará em outubro próximo. Apesar de o filho 01 de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, estar derretendo nas pesquisas eleitorais, que ele chegou a liderar — ao ser pego pedindo dinheiro ao então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro —, os dois nomes que poderiam atrair os votos de eleitores conservadores, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, nem se mexeram na tabela.
Retornando a Portugal, durante as eleições legislativas em que o PSD foi o partido mais votado, garantindo o comando do governo, Montenegro entoou o discurso de que “não é não”, de que jamais o seu partido se aliaria ao Chega. Mesmo já ocupando o Palácio de São Bento, continuou levantando a bandeira do cordão sanitário para isolar a extrema-direita. Montenegro e o PSD, no entanto, acreditaram que um dos caminhos para se consolidarem no poder seria abraçando as propostas de Ventura para restringir a imigração no país.
De início, isso foi feito de uma forma envergonhada, mas, aos poucos, a vergonha deixou de ser problema. E o que se viu a seguir foram alguns integrantes do PSD já defendendo medidas mais radicais. E, com o apoio do Chega, a nova Lei de Estrangeiros, cuja primeira versão foi detonada pelo Tribunal Constitucional e pelo então presidente Marcelo Rebelo de Sousa, e a nova Lei da Nacionalidade, também cheia de ressalvas feitas pelos constitucionalistas, entraram em vigor.
As pesquisas eleitorais mais recentes mostram, contudo, que a simbiose entre o PSD, representado pela Aliança Democrática (AD), e o Chega já está trazendo frutos para o partido de André Ventura. O grupo político do qual Montenegro faz parte aparece na terceira posição na preferência dos votantes, atrás da ultradireita. Enquanto o Chega desponta com 23,5% da preferência dos eleitores, a AD fica com 23,2%, dez pontos percentuais de distância do Partido Socialista (PS), que tem 33,4%.
Para o Chega, interessa radicalizar na polarização em Portugal: o partido contra a esquerda. Nesse cenário, não há espaço para a centro-direita civilizada. É exatamente o que acontece no Brasil. O bolsonarismo, com seus apoiadores que parecem formar uma seita, se alimenta da divisão do país, na qual o PT de Lula está na outra ponta. Se o filme se repetir em Portugal como há indícios, não será mais o PSD na luta democrática contra o PS. Mas o Chega e seu radicalismo demonizando a esquerda e atraindo os ditos conservadores que estão saindo do armário.
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