A noite em que jantamos com um casal racista

0
2

Nas últimas semanas, andei a ler três livros ao mesmo tempo. Comecei com Comer, Orar, Amar, de Elizabeth Gilbert, que cumpre 20 anos do seu lançamento; depois juntei O Livro das Minhas Vidas: Uma Espécie de Memórias, de Margaret Atwood, o título diz tudo; e Yesteryear, de Caro Claire Burke. São livros que não se confundem e que é fácil saltar de um para o outro, conforme o cansaço à hora de deitar. Já na hora de viajar, sendo pouco prático levar três calhamaços na mala — Atwood ganha às outras duas! — e porque a revista Ímpar estava praticamente a ir para as bancas (entretanto saiu no domingo passado), acabei por eleger Yesteryear, que nos EUA é considerado o hit deste Verão. 

Este é o primeiro romance de Caro Claire Burke, ainda não estava escrito e já a actriz e produtora Anne Hathaway estava a comprar os seus direitos para produzir um filme, no qual será a protagonista, Natalie. Esta não é propriamente uma heroína e é difícil empatizar com ela, afinal, trata-se de uma jovem mulher que decide levar ao limite a ideia de ser uma influencer da ultra direita nacionalista, uma tradwife profundamente “cristã” (entre aspas, que o Papa andou na sua última visita apostólica a Espanha, a frisar o que é ser cristão – um parênteses dentro do parênteses para assinalar que Leão XIV sempre se encontrou com Bad Bunny em Madrid).

Burke põe a nu o que é este movimento das tradwives mas também reflecte sobre questões que a jornalista Rita Caetano toca no trabalho Há uma onda antifeminista liderada por mulheres dispostas a regressar ao passado; ou também abordados na entrevista à autora britânica Sophie Gilbert feita pela jornalista Madalena Haderer. Tudo na Ímpar, a revista, reforço. Natalie, a protagonista, aponta o dedo às Mulheres Zangadas que são todas aquelas que ela acredita que a invejam e a odeiam, mulheres mergulhadas nas suas vidas banais, enquanto ela brilha num mundo perfeito, pelo menos, à frente da câmara, na sua superioridade moral e racial — afinal são descendentes dos pioneiros, os que conquistaram a terra aos índios.

Tal como a maioria dos thrillers, este publicado pela Porto Editora, Yesteryear é viciante mas tem pequenas incoerências, por vezes é repetitivo e chegamos ao fim com aquele sentimento “já acabou? Onde está o grande final?” (diz a autora que foi intencional). Mas, depois de o fechar, acreditem que comecei a ver Natalie, assim como o seu marido Caleb, em algumas pessoas com quem me fui cruzando. O mais surreal foi durante um jantar, numa festa de final de tarde aparentemente banal, no Algarve, quando conhecemos E. e G..

Sem sítio para pousar o prato, o copo e conseguir comer, eu e o meu marido acenámos a um casal de estrangeiros como quem pede autorização para se lhes juntar na pequena mesa redonda de pé alto. Eles acenaram de volta. Ela passa o tempo a ir buscar comida para os dois, pergunta-lhe o que quer, as quantidades e ele não se mexe. São jovens, altos, louros, bonitos e, pouco depois, ficamos a saber que muito ricos, pelo menos ele. A conversa vai fluindo, até que ele sabe que eu sou jornalista e, de repente, passamos da crise do imobiliário e dos benefícios de uma alimentação saudável para a crise da imigração, com G. a citar vídeos de André Ventura e de “Alfonso”, o rapaz da Reconquista. Digo-lhe que tudo aquilo é falso e ele até concorda mas há algo de que tem a certeza, que nós, os espanhóis, os ingleses e os holandeses somos superiores a todos os outros povos. As conquistas explicam a nossa superioridade. “Não têm orgulho na vossa história?”

Temos, mas moderadamente, respondemos. A partir do momento em que destruímos outras civilizações, se calhar, não é de nos orgulharmos assim tanto, mas de pedirmos desculpa porque somos responsáveis pelo atraso desses povos. Ele não concorda e atira com a “superioridade da raça ariana”. Nós não somos arianos, responde o meu marido, os árabes estiveram na Península Ibérica cerca de 800 anos. “Não, não, vocês são celtas”, afirma convicto e propõe-nos fazermos um teste de ADN, o dele deu ariano e celta. Ela regressa com dois pratos. É de origem brasileira, mãe de ascendência alemã e quando fez o teste ficou espantada porque tinha uma pequena percentagem de ascendência do Burkina Faso e Gana — provavelmente antepassados escravos dessa região, dizemos, deixando-a calada.

Ambos cresceram no Algarve, frequentaram uma escola internacional, sabemos que estudaram fora, mas vivem ali em permanência. Ela conta que quando chegou tinha 8 anos e na escola o professor ralhava-lhe porque ela não sabia escrever o seu nome — “mas no Brasil é com E”, argumentava a menina; e o professor dizia-lhe que não estava no Brasil e que cá era com H. “Mas eu compreendo”, diz, com ar realmente compreensivo. Como entende que uma professora portuguesa, recentemente, tenha excluído os alunos brasileiros do coro porque só se ouvia o sotaque do Brasil. Eu e o meu marido, que desconhecíamos o caso, ouvimo-la incrédulos. Será síndrome de Estocolmo?

Ele insiste na superioridade europeia, nós perguntamos se não há nada que admire em culturas milenares com a chinesa ou a indiana. “É diferente, nós somos modernos”, responde e, por isso, nós, eu e o meu marido, devíamos querer um “Portugal só para os portugueses”. Então, o meu marido diz-lhe: “Nesse caso, tu e a E. têm de se ir embora, vocês não são portugueses.” Ele fica com um gesto suspenso por cima da mesa, a boca cala-se e os olhos piscam de incompreensão — como eles, se são superiores? O meu marido repete, no seu melhor inglês: “You and E. must go.” Mas não é isso que queremos, digo, quebrando o silêncio, queremos todos cá porque todos são importantes. “Quem vai limpar a tua casa? Quem vai servir o espumante?”, continua o meu marido, apontando para os funcionários que recolhem os pratos e nos enchem os copos. “Sim, sim, um amigo meu também diz que precisa deles para apanharem os frutos vermelhos…”, murmura G..

“Deles” — porque na cabeça deste casal, eles não são como os outros, não é só por serem louros e terem feito um teste de ADN que os coloca no topo da hierarquia das raças, é também por serem ricos. Por isso E. não sofre de síndrome de Estocolmo, ela acredita que não é uma brasileira igual à jovem que levanta os pratos sujos da nossa mesa. G. volta à carga: “Viram o menino morto em Inglaterra?”, fala de Henry Novak, 18 anos. Então, ainda não se tinha dado o caso em Belfast que levou a uma onda de violência, cujos alvos foram as pessoas de cor — fossem ou não imigrantes. Sim, vimos Novak que agora é uma bandeira da extrema-direita, digo. “Mas a maioria dos crimes são da responsabilidade dos imigrantes?”, pergunta o meu marido a G.. “No, it’s domestic violence“, responde ele.

Precisamente, quantos desses homens foram para a rua pelas mulheres que foram mortas? Ele amua e pergunta “bates na tua mulher?”. Eu e o meu marido damos uma gargalhada. “Eu não e tu bates na tua?” Novo silêncio, eu respondo-lhe que os portugueses de bem que ele admira ou não têm mulher, como “Alfonso” (G. dá uma gargalhada e admite que sim, não terá com toda a certeza, ri); ou não lhes tocam, como aparentemente Ventura, que não tem filhos (G. volta a rir-se e menciona a coelha Acácia); ou as agridem ou são pedófilos como vários elementos do partido, para não esquecer o ladrão de malas. G. volta a ficar sério. Mais um momento de silêncio.

Já é hora da sobremesa, E. convida-me para ir com ela até ao buffet escolher os doces. Fala-me da sua vida, como não terminou o curso superior para se dedicar a G., que viaja com as suas amigas quando ele também está em viagens de trabalho. Quando voltamos à nossa mesa, conta-me das últimas cidades europeias que visitou. G. ouve as palavras da mulher. “É verdade, aqui o gringo paga, paga tudo.” Ela ri num riso suave e subserviente. E volto a pensar no movimento das tradwives, que não está assim tão longe, tudo chega, mais cedo ou mais tarde, se nos EUA há mulheres dispostas a ceder o seu direito de voto aos maridos porque não por cá? Parece que já estivemos mais longe de A História de Uma Serva, a distopia de Margaret Atwood. Quantas mulheres estão dispostas a ficar dependentes de um homem porque alegadamente o feminismo não cumpriu o que lhes foi prometido, em vez de continuarem a lutar pelos seus direitos? A “sorte” é que, por cá, poucas mulheres podem ficar dependentes de um homem, os nossos ordenados não o permitem. 

A noite termina com fogo-de-artifício, com palmas, troca de telefones e contas nas redes sociais, passamos a seguir-nos uns aos outros no Instagram. G. que esteve toda a noite ao ataque, está finalmente descontraído e a conversa volta à banalidade, dos restaurantes que não podem perder se forem a Lisboa, das praias que temos mesmo de ir se ficarmos mais uns dias por ali. No final, despedimo-nos como fazem os amigos. G. dá um abraço ao meu marido e diz-lhe: “Obrigado, fizeste-me ver algumas coisas de uma maneira diferente.” Entretanto, deu-se o caso de Belfast e imagino G. em mais uma festa a proclamar que os imigrantes têm de se ir embora, estará lá alguém para o confrontar? 

Boa semana.

P.S.: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com