A “esponja de carbono” do solo é o sistema de arrefecimento da Terra que continuamos a ignorar

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O discurso climático global centra-se há décadas na redução das emissões de dióxido de carbono. Um novo relatório publicado pelo movimento Save Soil propõe que o verdadeiro motor de estabilização do clima não é o carbono atmosférico, mas a água. E a chave para a recuperar está debaixo dos nossos pés.

Segundo o relatório A Esponja de Carbono do Solo: Restaurar o Sistema de Arrefecimento Hidrológico da Terra para a Estabilidade Climática​​, a água é responsável por aproximadamente 95% da dinâmica de calor da Terra há mais de quatro mil milhões de anos, através de processos hidrológicos interligados como a evapotranspiração e a condensação.

No centro deste sistema está a chamada “esponja de carbono do solo” — uma infra-estrutura viva e porosa, composta por partículas minerais, matéria orgânica e espaços de poros, que absorve e retém humidade, sustenta a vegetação e permite que o calor solar seja dissipado como vapor de água em vez de aquecer directamente o ar.

A evapotranspiração — o processo pelo qual plantas e solos devolvem água à atmosfera — exporta cerca de 80 Watts por metro quadrado (W/m²), ou seja, cerca de 24% da energia solar recebida, tornando-a o principal regulador térmico do planeta. Em solos saudáveis, um metro cúbico de terra pode conter até 25 mil quilómetros de hifas fúngicas, formando uma rede extensa que mobiliza nutrientes e sustenta a estrutura do solo.

Quando esse sistema funciona, o calor é consumido e transferido para a atmosfera sem aumentar a temperatura superficial. Quando está degradado, a mesma energia converte-se em calor sensível, subindo as temperaturas.

Degradação à escala europeia

O relatório traça um retrato preocupante: 52% das terras agrícolas mundiais estão degradadas. Na Europa, estima-se que 60 a 70% dos solos não sejam saudáveis, consequência da agricultura intensiva, da urbanização e das próprias alterações climáticas. Nos Estados Unidos, cerca de um terço dos solos está gravemente degradado, com taxas de erosão até dez vezes superiores à formação natural.

A Terra recebe cerca de 342 W/m2 de radiação solar na camada superior da atmosfera. Ao exportar aproximadamente 80 W/m2 dessa energia de volta para a atmosfera, a evapotranspiração dissipa o calor sob a forma de fluxo de calor latente.

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Estes números traduzem-se em impactos concretos. Desde 2018, os défices de humidade do solo intensificaram-se em grande parte da Europa, contribuindo para ondas de calor recorde e perdas agrícolas. Em 2023-2024, as condições de seca afectaram mais de 40% das terras agrícolas norte-americanas.

O relatório cita ainda o recente documento da ONU Global Water Bankruptcy, que sublinha que estes custos resultam sobretudo da perda de humidade do solo — e não apenas da escassez de precipitação. Os danos globais anuais associados à seca ultrapassam os 307 mil milhões de dólares.

Como reverter o desequilíbrio

O desequilíbrio energético total que provoca o aquecimento global situa-se em apenas 0,9 W/m². O investigador Walter Jehne, citado no relatório, argumenta que restaurar a “esponja de carbono do solo” e restabelecer a cobertura vegetal poderia aumentar a evapotranspiração o suficiente para compensar 3,0 W/m² — ou seja, reactivar uma força de arrefecimento três vezes superior ao efeito total de aquecimento causado pelos gases de efeito de estufa de origem humana.

A escala da oportunidade é igualmente visível do ponto de vista hídrico: cada aumento de 1% na matéria orgânica do solo permite que um hectare retenha mais 250 mil litros de água, criando reservatórios subterrâneos que sustentam a vegetação, alimentam a evapotranspiração e arrefecem a paisagem.

O relatório estima ainda que melhorar a saúde do solo nas terras agrícolas globais poderia sequestrar entre três e cinco gigatoneladas de CO2 por ano, com benefícios simultâneos para a segurança hídrica e alimentar.

Colapso das correntes de arrefecimento

Os ecossistemas florestais, que cobrem cerca de 42 milhões de quilómetros quadrados e representam 30% da superfície terrestre, desempenham um papel central neste sistema. As florestas não só transpiram activamente — convertendo energia solar em calor latente através das suas superfícies foliares (a área das folhas das plantas que interage com o ambiente) —, como também libertam núcleos de condensação que alimentam a formação de nuvens e o ciclo local de chuva.

Na Amazónia, por exemplo, este mecanismo cria um “pequeno ciclo da água” em que o ecossistema transpira diariamente e desencadeia as próprias tempestades que devolvem essa água ao solo.

A desflorestação, descreve o relatório, destrói esta capacidade. Em 2024, os trópicos perderam cerca de 6,7 milhões de hectares de floresta primária — a perda mais elevada em pelo menos duas décadas. No Brasil, entre 2002 e 2024, foram perdidos 34 milhões de hectares, sendo a agricultura permanente o principal motor dessa perda.

Quando a cobertura vegetal desaparece, a infiltração e o armazenamento de água diminuem, o balanço energético desloca-se para o calor sensível e instalam-se as condições para “cúpulas de calor” persistentes que suprimem a entrada de humidade e amplificam a aridificação.

Recomendações

O relatório da Save Soil apresenta nove recomendações, como priorizar a regeneração da esponja de carbono do solo em todos os tipos de terra — culturas, pastagens, florestas e zonas húmidas —, através de lavoura reduzida, restauração de matéria orgânica, agro-silvicultura e pastoreio adaptativo; manter cobertura vegetal permanente para maximizar o arrefecimento por evapotranspiração; e integrar a regeneração dos solos nas políticas climáticas e de desenvolvimento como estratégia central, a par da redução de emissões.

O objectivo final, segundo o documento, é restaurar os cerca de 3 W/m² de capacidade de arrefecimento natural perdida — restabelecendo a evapotranspiração, a formação de nuvens, a reciclagem de precipitação e a libertação de calor nocturno. Alcançar este valor significaria parar de ignorar os 95% da dinâmica de calor governados pela água e permitiria às paisagens funcionarem novamente como estabilizadores climáticos auto-regulados.

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