A Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza é um espaço de diálogo para promover a paz e não um tribunal, afirmou na quarta-feira o presidente da fundação que organiza o evento, Pietrangelo Buttafuoco, num discurso emotivo em que defendeu a sua decisão de permitir o regresso da Rússia. Ausente desde a invasão da Ucrânia, em 2022, Moscovo foi este ano autorizada a reabrir o seu pavilhão nos jardins que acolhem a exposição, o que desencadeou críticas do Governo italiano e da União Europeia (UE).
As declarações de Buttafuoco surgiram no mesmo dia em que o Pavilhão da Rússia na bienal se tornou o centro das atenções, na sequência de um protesto protagonizado pelo colectivo Pussy Riot. Com os rostos ocultados por balaclavas cor-de-rosa, cerca de 40 manifestantes, entre membros das Pussy Riot e do grupo feminista Femen, reuniram-se à porta do pavilhão, agitando tochas da mesma cor, mas também amarelas e azuis, as cores da bandeira ucraniana.
A banda, que se assume também como um colectivo activista empenhado em denunciar os abusos da Rússia de Vladimir Putin, tocou a sua música punk minimal enquanto gritava palavras de ordem como “O sangue é a arte da Rússia”, “Com a curadoria de Putin, cadáveres incluídos”, “A Rússia mata, a bienal expõe” ou “Arte russa, sangue ucraniano”. Uma tentativa de invadir o pavilhão foi repelida pela polícia.
Apesar da tempestade que se tem vindo a agitar desde que a decisão de readmitir a Rússia se tornou pública, no início de Março, o presidente da bienal mantém-se firme na sua posição.
“O mundo nascido da Revolução Francesa, do Iluminismo e do secularismo, transformou-se no seu exacto oposto: um laboratório de intolerância e de exigências de censura, encerramento e exclusão”, afirmou em conferência de imprensa.
As declarações surgem num momento particularmente tenso, devido também à presença de Israel na bienal. Na passada quinta-feira, o júri da bienal, presidido pela curadora brasileira Solange Oliveira Farkas, apresentou a sua demissão, uma semana depois de ter anunciado que seriam excluídos dos prémios artistas de países acusados de crimes contra a humanidade, como a Rússia e Israel.
“A bienal não é um tribunal; é um jardim de paz. Não podemos encerrá-la, não podemos boicotá-la. Temos de discutir. Podemos discordar, e fazemo-lo com veemência”, defendeu agora o presidente da Bienal de Veneza.
No protesto às portas do pavilhão, Nadya Tolokonnikova, uma das fundadoras das Pussy Riot, pediu a Pietrangelo Buttafuco, em declarações citadas pelo Guardian, que “pare de receber dinheiro russo”. Em comunicado, o grupo oferece-se para fazer a curadoria do Pavilhão da Rússia em 2028, expondo obras de artistas que estejam ou tenham estado no passado detidos nas prisões russas.
“É estranho para mim ver que a Europa diz permanentemente que a Ucrânia é um escudo para todo o continente europeu, mas abre as suas portas, uma e outra vez, à propaganda russa”, afirmou Tolokonnikova.
Pressão da UE
Bruxelas ameaçou retirar dois milhões de euros de financiamento como resposta à admissão da Rússia, enquanto o Governo italiano enviou inspectores a Veneza para investigar o tema. Um representante da bienal afirmou que a Rússia não foi convidada, mas tem o direito de participar por ser proprietária do pavilhão.
Devido às sanções da UE, Moscovo só poderá abrir o seu espaço durante os quatro dias de pré-estreias para a imprensa, que terminam esta sexta-feira, dia 8. Depois, e durante os seis meses de duração da exposição, os visitantes terão de permanecer no exterior e assistir a vídeos projectados nas paredes externas do pavilhão.
Num comentário no Facebook, o embaixador russo na Itália, Alexey Paramonov — que se encontrava em Veneza para a inauguração do pavilhão —, criticou a UE pelo que chamou de “obsessão irracional em atacar a cultura e as artes russas”.
“A nossa presença na bienal é simplesmente testemunho da disponibilidade da Rússia… para continuar a dialogar com a Itália… através da linguagem da cultura e da arte”, afirmou.
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