A frase não é minha, é do Changuito, o dono da livraria Poesia Incompleta, e eu sei que ele não gostava de mim, percebi isso quando o enterrei no quintal, e eu gostava dele, que é que se há-de fazer?, sou assim, uma melosa, uma Osório, como dizia a minha avó, e a minha avó dizia muitas coisas como se tudo fosse simples e não fosse.
E eu ouvi-o a gozar comigo, ou a parecer que gozava, ou talvez fosse só o mundo a gozar connosco, que às vezes também acontece, e ele disse isto, assim, com aquela naturalidade de quem não sabe que está a dizer qualquer coisa importante: Cada Narciso tem um lago no bolso, e eu fiquei com isto preso.
A minha avó dizia que o importante era gostarmos do que gostamos, mesmo quando não gostam de nós, como se isso resolvesse alguma coisa, e eu gostava dele, do Changuito, e da maneira como ele parecia que o mundo lhe ficava um pouco apertado nas mangas.
E ele tinha razão, nesta era dos telefones que se fazem passar por espertos e dos xicos espertos que se fazem passar por telefones antigos, somos Narcisos com um lago no bolso, sempre a espreitar um espelho que não é espelho nenhum, esta ideia de profundidade sem fundo. E não caímos lá dentro, dizem que não caímos, mas dá-me a sensação de fomos sugados por uma luz constante, aspirados para espaço nenhum.
Antes de enterrar o Changuito no quintal, ainda o deixei fazer uma bombada de Ventilan e lhe dei um cigarro, só por causa da frase do Narciso, só por causa disso, como se uma frase pudesse adiar o que não tem salvação.
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