Passados mais de cinquenta anos sobre a Revolução dos Cravos, a nossa liberdade física e institucional tornou-se, felizmente, um dado adquirido. Não tememos a polícia política na calada da noite, não sofremos os constrangimentos da censura prévia, e a possibilidade de divergir publicamente é um direito que exercemos com naturalidade. Contudo, ao assinalarmos o 25 de Abril, talvez devêssemos fazer uma pausa para refletir não apenas sobre a liberdade que conquistámos, mas sobre o uso que lhe estamos a dar. O grande desafio contemporâneo já não passa por garantir a liberdade de expressão, mas por resgatar algo anterior e mais íntimo: a nossa soberania cognitiva e a capacidade de pensar livremente, sem amarras, numa época que se tornou ruidosa demais.
As amarras do presente não são feitas de ferro, nem nos são impostas por decretos autoritários. São subtis, invisíveis e, na sua maioria, consentidas. Se a ditadura do Estado Novo exercia o seu poder através da escassez e do apagamento, privando os cidadãos da informação, o nosso tempo sofre da patologia oposta. Vivemos submersos num dilúvio incessante de estímulos. E é precisamente nesta hiperestimulação que a nossa clareza mental começa a diluir-se. O espaço público, que as gerações de Abril imaginaram como uma grande ágora de debate plural e construtivo, transformou-se lentamente numa exaustiva luta de trincheiras.
Sem darmos por isso, fomos perdendo a capacidade de escutar. As redes sociais e as plataformas digitais, que inicialmente prometiam ligar o mundo, acabaram por revelar uma preferência algorítmica por aquilo que nos divide. A indignação tornou-se a moeda de troca do nosso tempo.
Nesta economia da atenção, a desinformação não é apenas um problema técnico, tornou-se o adubo silencioso de uma cultura de ódio e crispação. Fechamo-nos em bolhas de conforto onde apenas ouvimos o eco das nossas próprias certezas. E, a partir do momento em que nos entrincheiramos, o contraditório deixa de ser visto como uma oportunidade de crescimento para passar a ser encarado como uma ofensa. O outro deixa de ser um parceiro no projeto democrático e passa a ser apenas um obstáculo.
É nesta vulnerabilidade humana que acrescenta uma nova camada de complexidade. A proliferação de campanhas de desinformação automatizadas, áudios e vídeos sintéticos não nos obriga necessariamente a acreditar numa mentira específica. O seu efeito é mais triste e corrosivo: desgasta gradualmente a nossa confiança na ideia de que existe uma realidade factual partilhada. Quando tudo pode ser falso, a descrença generaliza-se. E uma sociedade cínica, cansada e incapaz de concordar sobre os factos mais básicos é o terreno perfeito para a erosão silenciosa da democracia.
Pensar de forma verdadeiramente livre, sem estas novas amarras, tornou-se, por isso, um labor de enorme exigência cívica e pessoal. Pensar livremente não é a urgência de ter uma opinião imediata sobre tudo o que surge num ecrã. Pelo contrário, é a capacidade de cultivar o silêncio interior, é a coragem de hesitar antes de julgar, é a elevação de abandonar a nossa trincheira para tentar compreender o ponto de vista de quem está do outro lado.
Honrar a madrugada de 1974 não é apenas celebrar a queda de um regime. É aceitar que a liberdade é um músculo frágil que precisa de atrito para não atrofiar. Exige de nós a paciência para a complexidade e a recusa firme da cultura do ódio. A revolução de hoje já não se faz nas ruas com cravos nas espingardas, mas na quietude da nossa própria consciência, quando decidimos que não abdicaremos da responsabilidade de pensar pela nossa própria cabeça.
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