David Attenborough: “a voz de fundo do mundo natural” faz 100 anos

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O naturalista britânico David Attenborough completa 100 anos nesta sexta-feira, 8 de Maio. O Azul reuniu testemunhos de dez investigadores e ambientalistas portugueses que, como milhões de pessoas, tiveram na infância a sala de estar atravessada pela voz inconfundível do apresentador de documentários da vida selvagem.

Realizador e apresentador, David Attenborough dedicou mais de sete décadas à comunicação de ciência. Tornou-se uma figura central da televisão britânica BBC a partir dos anos 1950, destacando-se com programas como Zoo Quest e, mais tarde, com a icónica série Life on Earth, que o tornou conhecido mundialmente. Ao longo da carreira, produziu e narrou numerosos documentários de referência, como Blue Planet e Frozen Planet, combinando ciência, storytelling e fascínio pela natureza. Nas últimas décadas, tem-se afirmado como uma voz influente na defesa do ambiente e da acção climática.

O zoólogo Luis Ceríaco, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (Cibio-Biopolis), exalta “a forma simples e directa” com que Attenborough expõe ideias científicas e como os seus filmes são “uma passagem de testemunho” para “aprendizes de naturalistas”. A admiração de Ceríaco pelo apresentador britânico é tal que, em 2024, baptizou uma nova espécie de lagartixa como Trachylepis attenboroughi.

O taxonomista e botânico João Farminhão chama-lhe “embaixador da biodiversidade”. Já Sérgio Henriques, líder grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), considera-o “a voz de fundo do mundo natural”. A vida selvagem entrou-lhes em casa pela televisão e mudou a forma como viam o mundo natural.

Algo semelhante ocorreu na infância de Sara Bárrios, dos Jardins Botânicos Reais de Kew, e de Pedro Prata, da Rewilding Portugal, que descrevem um “fio invisível” que liga a criança fascinada no sofá ao trabalho de conservação que desempenham hoje.

A espécie Trachylepis attenboroughi, uma lagartixa do sul de Angola, foi assim nomeada em homenagem ao naturalista David Attenborough
Luís Ceríaco/DR

Luis Ceríaco, investigador do Cibio-Biopolis

Como tantos outros, cresci a ver os documentários de Sir David Attenborough. Acima de tudo, para além da espectacularidade das imagens, o que mais me fascina nos seus documentários é a forma simples e directa como expõe as ideias. Não são apenas uma aula de ciências, são uma passagem de testemunho entre um naturalista com décadas de experiência para nós, aprendizes de naturalistas.

A comunicação da ciência e o compromisso em formar novas gerações de naturalistas têm sido um dos pontos centrais da minha carreira como zoólogo – em boa parte inspirado na forma como o “cota” Attenborough nos ensinou. Foi por isso que em 2024, quando estava a fazer a revisão taxonómica de um género de lagartixas angolanas, decidi que iria baptizar uma das espécies novas que estava a descrever como Trachylepis attenboroughi.

João Farminhão, investigador da Universidade de Coimbra

David Attenborough ocupa um lugar consensual como embaixador da biodiversidade. Nenhuma outra pessoa na história pôs tantas espécies no coração de tanta gente. Com a sua filmografia, em especial o conjunto da série Life, assistida na televisão, em VHS e DVD, vivi momentos mágicos. Recordo um deles: na África do Sul, recorreu a um diapasão para imitar os efeitos vibráteis de uma abelha que assim poliniza uma planta da família da genciana. A verdade é que me tornei botânico aprendiz, na adolescência, depois de ver A Vida Privada das Plantas.

A bióloga marinha no seu laboratório no Ciimar, em Matosinhos
Adriano Miranda

Joana Xavier, bióloga do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental

Lembro-me de ficar fascinada com a série The Blue Planet quando já me encontrava a fazer a licenciatura em Biologia Marinha nos Açores. Anos mais tarde, tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente, nos Países Baixos, num evento da Future for Nature Foundation. Recordo a sua simpatia e principalmente a sua curiosidade sobre a nossa investigação; que espécies e habitats estudávamos, em que região, quais as nossas descobertas mais surpreendentes sobre a biologia e ecologia delas? É, sem dúvida, uma das maiores vozes, quer literal quer simbólica, na partilha do conhecimento sobre o mundo natural, inspirando investigadores e a sociedade a proteger este nosso planeta azul.

Sara Bárrios, investigadora dos Jardins Botânicos Reais de Kew

Não me lembro ao certo de que idade tinha, mas guardo na memória a televisão, as minhas irmãs ao meu lado e aquela voz. Uma voz calma, pausada, quase sussurrada. A natureza entrava-nos pela casa adentro e nós sentíamo-la quase ao alcance da mão. Aos domingos, havia sempre tempo para os documentários da BBC com o David Attenborough!

Sara Bárrios em trabalho de campo na ilha de Anegada, Ilhas Virgens Britânicas
Deborah Seddon/DR

Hoje trabalho com conservação de plantas, e percebo que há um fio invisível que liga aquela criança no sofá à pessoa que sou hoje. O David Attenborough ajudou a nutrir a semente que já existia dentro de mim. Talvez seja essa a sua maior obra: não os documentários em si, mas tudo o que germinou a partir deles. E, agora com 100 anos, a voz do David Attenborough continua a fazer-se ouvir, não só para revelar a beleza do mundo natural, mas também para nos alertar para a sua fragilidade e para o que podemos perder.

Pedro Prata, biólogo e líder da Rewilding Portugal

Há influências que só reconhecemos anos depois, quando olhamos para trás e percebemos o fio invisível que liga quem somos ao que nos formou. David Attenborough é um desses fios na minha vida.

Aos sábados de manhã, ainda criança, esperava os seus documentários com uma antecipação que hoje me parece quase sagrada. Não sabia então que aquelas horas em frente à televisão estavam a construir algo — uma forma de ver, de sentir, de me relacionar com o mundo vivo. Coleccionei os documentários em cassetes VHS, que ainda hoje preservo, não por nostalgia, mas porque representam o início de uma conversa que nunca mais parei de ter — comigo próprio e com a natureza.

A influência de Attenborough não se resume a conhecimento, foi uma linguagem, uma semântica do mundo natural que trespassa a experiência no mundo vivo. A capacidade de olhar para uma paisagem aparentemente silenciosa e perceber que está cheia de histórias.

Francisco Ferreira, especialista em qualidade do ar e presidente da associação ambientalista Zero
Nuno Ferreira Santos

Obrigado, Sir David, por me teres iniciado nesta conversa.

Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero

Desde que me lembro de ver documentários sobre a natureza, Félix Rodríguez de la Fuente e David Attenborough foram para mim referências incontornáveis ao longo de décadas nos livros e na televisão. A forma como David Attenborough comunica sobre natureza, biodiversidade e mais recentemente a crise ecológica foi sempre uma enorme inspiração para o meu trabalho em associações e como professor e investigador. Ele mostrou que o rigor não tem de ser incompatível com a emoção, que a beleza do mundo natural pode ser uma porta de entrada para a compreensão dos seus equilíbrios frágeis, e que comunicar ciência é também criar responsabilidade colectiva.

Confesso que sempre invejei ser eu naquelas paisagens magníficas ou por vezes dramáticas, a conduzir e apresentar aqueles conteúdos fascinantes. Tentei aproximar-me muito ligeiramente (mas a muitas milhas de distância), quando, durante uns bons anos, apresentei na RTP o Minuto Verde e percebi o enorme desafio que ele sempre conseguiu superar com uma voz marcante e feliz.

Sérgio Henriques, líder do grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da IUCN

Para muitos de nós, Sir David é a voz de fundo do mundo natural, uma referência. Para mim, foi durante mais de uma década, o meu vizinho em Richmond, Londres, e uma bússola que ajudou a definir o meu percurso. Na minha infância, coleccionei todas as suas séries em VHS (que ainda tenho) e hoje guardo os seus livros autografados com orgulho e referência da acessibilidade e entusiasmo espero nunca perder. Temos uma dívida para com o David, porque inspirou gerações de espectadores a ser biólogos e conservacionistas.

Catarina Grilo, directora de conservação e políticas da WWF Portugal
Nádia Pedro/DR

Joana Marques, investigadora do Cibio-Biopolis

Creio que não há biólogo da minha geração que não tenha sido influenciado pelos seus programas, e será difícil apontar um grupo biológico que ele não tenha explorado. Para quem, como eu, começou a interessar-se por plantas nos anos 1990, os marcantes time-lapse de A Vida Privada das Plantas foram decisivos. Revelaram um mundo em movimento invisível a olho nu, despertando em mim a curiosidade pelo pequeno, observado através de lupas e microscópios, primeiro em musgos, depois nos líquenes. Ao revisitar o episódio “Living together”, percebo porque, anos mais tarde, perante o imenso tapete de líquenes laranja do Namibe, foi como se já nos tivéssemos cruzado antes.

Catarina Grilo, directora de Conservação e Políticas da organização WWF Portugal

Não sou a bióloga clássica apaixonada pela natureza desde criança. O meu gosto pela natureza cresceu com a família, os amigos, o Sado e a Arrábida e, claro, a televisão. Com os documentários de David Attenborough, magníficos, e divertidamente parodiados por Herman José, aprendi a enorme variedade de espécies, cores, relações e fenómenos da natureza. Despertaram-me ainda o desejo de aventura e de mundo. Graças a ele, eu e muitos milhões de pessoas aprendemos quão bonita e importante a natureza é para a nossa sobrevivência e bem-estar. Que floresçam muitos e muitas como ele!​

Pedro Correia, paleontólogo e investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Cresci a ver os documentários do David Attenborough, e é sem dúvida uma fonte de referência e inspiração para muitos jovens cientistas e os apaixonados pela natureza. Os seus documentários sobre a vida na Terra primitiva foram particularmente inspiradores para mim para seguir uma carreira de paleontólogo. A sua voz activa na defesa dos ambientes e na luta contra as alterações climáticas tornou Attenborough o maior ícone naturalista da televisão mundial. Depois de Charles Darwin (considerado o pai da Teoria da Evolução das Espécies), Attenborough é provavelmente o naturalista mais influente do século XX e XXI, sendo amplamente reconhecido como a voz da natureza. Muitos parabéns, Sir David Attenborough!​

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