E se o seu assistente de IA simulasse um ente querido já falecido?

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A fronteira entre a preservação da memória e a simulação da presença digital tornou-se um território de exploração tecnológica que põe em causa convenções sociais e psicológicas. O que, em 2013, surgiu como uma premissa distópica no episódio Be Right Back, da série Black Mirror — no qual uma tecnologia mimetizava um parceiro falecido a partir do seu rasto digital —, é hoje uma realidade comercial.

O conceito de finitude está a ser redefinido por algoritmos capazes de processar décadas de pegada digital para criar sistemas interactivos. A acumulação de milhões de dados pessoais em redes sociais e aplicações de mensagens tornou-se matéria-prima para a replicação digital de personalidades. Esta tecnologia, conhecida como GriefTech, procura transformar o silêncio do passado num diálogo mediado por processamento de dados, levantando questões fundamentais sobre a forma como a tecnologia interfere num dos processos humanos mais sensíveis.

Para a psicologia, o luto não é apenas um estado de tristeza, mas um processo adaptativo de reorganização interna. Segundo a investigadora Mary-Frances O’Connor, autora de O Cérebro de Luto (The Grieving Brain, no título original), o cérebro precisa de aprender a lidar com a ausência física de alguém que o mapa neuronal continua a identificar como presente. A introdução de avatares interactivos pode, segundo vários especialistas, interferir nessa aprendizagem. Quando a tecnologia fornece uma resposta imediata e realista, o processo de assimilação da ausência física é interrompido por uma presença digital persistente.

Serviços já disponíveis

O mercado tecnológico é actualmente liderado por empresas que aplicam modelos de linguagem de grande escala (LLM) à preservação biográfica. A norte-americana HereAfter AI e a sul-coreana DeepBrain AI — através da plataforma AI Studios e do serviço especializado Re;memory — estão entre os principais nomes deste sector. Estes sistemas utilizam técnicas de clonagem de voz e motores de inferência que permitem ao avatar reagir a novos estímulos com base na personalidade histórica do utilizador.

O resultado é aquilo a que algumas empresas chamam “gémeo digital de legado”: um agente capaz de manter conversas fluidas com a prosódia, o vocabulário e até as hesitações vocais originais. Esta tecnologia já não é uma simples gravação estática, mas uma inteligência artificial capaz de processar informação do presente através do prisma de uma identidade do passado. É uma espécie de Siri com a voz, o conhecimento e as opiniões do falecido. A plataforma StoryFile exemplifica esta aplicação ao recorrer a hologramas interactivos em arquivos e cerimónias, nos quais o sistema responde, em tempo real, às perguntas da audiência. No entanto, o realismo alcançado transporta os utilizadores para aquilo que o sector designa por Uncanny Valley — ou “vale da estranheza”.

Em 2022, Charlotte Jee, jornalista da MIT Technology Review, descreveu a experiência de interagir com versões algorítmicas dos seus pais, ainda em vida, relatando um conforto inicial que rapidamente deu lugar a uma profunda sensação de desconforto. Do ponto de vista neurocientífico, este fenómeno ocorre porque o cérebro detecta discrepâncias subtis entre a simulação e a realidade da consciência humana. A máquina limita-se a efectuar cálculos estatísticos para prever a resposta mais provável, criando uma simulação que, embora tecnicamente convincente, carece da intencionalidade emocional que define uma relação humana autêntica.

Mercantilização do legado

A rápida evolução desta indústria ultrapassou o ritmo da legislação internacional. Embora a União Europeia tenha implementado o AI Act, os direitos de personalidade pós-morte continuam numa zona cinzenta. O debate jurídico centra-se agora na questão do consentimento: investigadores de ética digital interrogam-se sobre se a família terá o direito de “ressuscitar” algoritmicamente um indivíduo que nunca deixou autorização explícita para tal.

Existe ainda o risco de o avatar digital de um ente querido ser utilizado para fins comerciais ou de manipulação emocional, uma vez que a carga afectiva associada à voz e à imagem pode ser explorada para influenciar decisões de consumo ou inclinações políticas dos vivos. O rasto digital, outrora privado, transforma-se assim num activo económico gerido por terceiros.

Sociólogos como Sherry Turkle, do MIT, alertam para as consequências da mercantilização da saudade. Se a custódia das memórias interactivas pertence a empresas privadas, a falência de uma tecnológica ou uma alteração dos termos de serviço pode provocar um “segundo luto”, em que os familiares perdem subitamente o acesso à simulação.

Estamos perante uma privatização do processo de lembrança, na qual a herança emocional passa a depender de servidores e contratos de subscrição. A tecnologia actual consegue mimetizar a comunicação humana com uma precisão sem precedentes, mas a sua integração no quotidiano levanta uma questão inevitável: estará a capacidade de dizer adeus a ser substituída por uma permanência artificial que dificulta o encerramento dos ciclos vitais?

O direito ao esquecimento e ao silêncio absoluto surge, assim, como um dos grandes debates éticos da década. Alguns investigadores defendem que a verdadeira inovação poderá não ser a que prolonga a presença através do código, mas antes a que garante a dignidade dos dados após a morte.

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