“Eu nem gosto de brasileiros, mas foi um que me salvou”

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Durante dez dias, intermitentes, andei pelo Algarve, a trabalhar para o especial Fugas Algarve, que saiu neste sábado com a edição impressa do PÚBLICO. Andei por Olhão, Albufeira e Carvoeiro. E se há coisa que me impressiona na restauração e na hotelaria, é encontrarmos as mesmas caras ao pequeno-almoço e ao jantar, não falo dos clientes, mas das pessoas que nos servem. Tal não significa que tenham jornadas de 12, 14 ou 16 horas (imaginem alguém que às sete da manhã já está na sala de pequenos-almoços e que à noite, às nove, está a servir um jantar volante), mas que têm horários repartidos. Durante a pandemia, a restauração e hotelaria foram das áreas mais afectadas, com despedimentos que obrigaram muitos trabalhadores a fazer mudanças de vida e, quando tudo retomou, não voltaram. Para quem conhece a área foi “zero surpresa”. Quem quer voltar a horários repartidos? Quem quer estar longe da família nas horas em que pode estar com os filhos, como são as das refeições?

Com falta de pessoal, os patrões tiveram de criar atractivos para conquistar e manter as equipas. Há hotéis com residências para os seus trabalhadores, espaços com piscina e com professores para aprenderem línguas — o português, por exemplo —, como acontece no Sublime Comporta; há quem tenha recuperado uma antiga pensão em Grândola e transporte os funcionários, como a Quinta da Comporta. E quem dê horários completos, em vez de repartidos. E quem aposte na manutenção das equipas através de benefícios, de formação, de ordenados mais atractivos. E depois, há quem se queixe de tudo, que as pessoas não querem trabalhar por “tuta e meia”, nem mesmo os imigrantes.

Nestes dias pelo Algarve, ouvi uma empresária queixar-se porque “as imigrantes preferem trabalhar por mais cem euros noutro lado, em época alta”, do que ficarem no seu restaurante onde paga 12 meses — leu bem, 12, em vez de 14 meses como manda a lei. “Começam, uma pessoa forma-as e passados três meses vão para o desemprego…”, queixa-se. “Julgo que ninguém pode pedir o subsídio com três meses de trabalho…”, respondo. “Pois não, precisam de mais tempo”, diz-me, contrariada. Mas é assim que começam as narrativas do Chega, que conquistou a autarquia de Albufeira, onde nos encontrávamos.

Num dos hotéis, também no mesmo município, um funcionário já com três décadas de trabalho, conta que “isto está muito mau”, que os colegas, todos estrangeiros, “alguns nem português sabem”, são ali postos por empresas de trabalho temporário. “E isto é o que a senhora vê aqui à frente, lá atrás, nas cozinhas, nem imagina, é só estrangeiros, nem um português…”, dito em tom depreciativo. Ao pequeno-almoço, noutro hotel, também em Albufeira, uma funcionária mais velha grita, em plena sala, com um desses colegas. “Isto são horas de chegar? Quem te mandou para aqui?” Estou pronta a levantar-me para apontar a falta de profissionalismo, quando o rapaz lhe mostra o horário no telemóvel, lhe diz que só fala inglês e ela baixa a voz e mostra-lhe quais são as mesas da sua responsabilidade. Com o corpo tenso e de rosto fechado, ele atende com toda a correcção, quem pode esboçar um sorriso quando foi humilhado frente aos clientes, logo pela manhã?

Noutro hotel, um chefe de sala comenta, sabendo que sou jornalista, como tudo mudou desde a pandemia, que os jovens não estão para fazer os sacrifícios que os mais velhos fazem, que preferem ir para o estrangeiro ganhar melhor pelo mesmo trabalho, que não gosta de trabalhar com “estes” — pergunto-me se não terá noção que os “nossos” possam sofrer a mesma discriminação que está a infligir aos colegas. “Eles nem português sabem falar!”, queixa-se. “Não precisam, a maioria dos clientes é estrangeira e fala inglês como eles! O senhor não fala em inglês com os clientes?”, pergunto, na tentativa de relativizar o drama que está a construir (aliás, que já está sedimentado na sua cabeça). “Mas isto está assim por todo o lado, não é só aqui”, continua, alheio às minhas palavras. E, de seguida, conta-me como teve um princípio de AVC e que foi um médico brasileiro que o atendeu no hospital. “Eu nem gosto de brasileiros, mas foi um que me salvou”, sublinha.

E eu fico a pensar no paradoxo que é não ter trabalhadores, de maltratar os que existem, e de nos queixarmos quando eles se vão embora porque não estão para ser explorados. Fico a pensar como somos feitos destas contradições. Um dia estamos a enxovalhar os imigrantes, no outro estamos a abraçá-los porque estão ao nosso lado, vestidos com a T-shirt da selecção e festejam o golo como nós. São dos nossos. Há uma magia no futebol que é a de nos juntar. A Inês Duarte de Freitas lembrou-se de escrever sobre o que devemos comer durante os jogos, há petiscos e bebidas saudáveis. E também dá conta de cinco detalhes de moda, de diferentes equipas que se apresentam no Mundial.

Como dizia, há uma magia que passa também por apoiarmos as equipas que têm poucas hipóteses de ganhar. Quem não se emocionou com Cabo Verde, com Vozinha, o guarda-redes, e com a ida da sua mãe ao Mundial? Com o menino uzbeque que chorou com o primeiro golo sofrido pela sua equipa e os colombianos que, à sua volta, começaram a torcer pela selecção contrária só para alegrar aquela criança? Com o homem estátua do Congo, que não marcou presença no jogo contra Portugal, mas que é um símbolo daquele país e da sua história.

Há uma razão para sermos solidários com os chamados underdogs, os que vão a jogo sem qualquer possibilidade de ganhar, porque nos revemos na sua coragem, na resiliência de enfrentarem os fortes, uma luta de David contra Golias que, no fundo, queremos que consigam ganhar por eles e por nós. Então, porque não temos a mesma empatia com os imigrantes?

Boa semana.

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