França-Senegal, esta terça-feira, um jogo com história

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A França chega sempre aos Mundiais como um dos favoritos. Para o Mundial 2026, os “bleus”, campeões em 2018 e “vices” em 2022, estão no topo da lista de muita gente e é um “cliché” falar do talento atacante à disposição de Didier Deschamps: é muito. Kylian Mbappé, Ousmane Dembélé, Rayan Cherki, Michael Olise, Desiré Doué, entre outros, são tantos que algum deles vai ter de ficar de fora de um hipotético “onze” francês. Medo para todos os que lhes vão aparecer pela frente, a começar pelo Senegal, nesta terça-feira, no MetLife Stadium em Nova Jérsia (20h, RTP1), o jogo que abre o Grupo I. Também era assim em 2002, da primeira vez que as duas selecções se defrontaram pela primeira vez em Mundiais, e bem sabemos como é que isso correu.

No Mundial de 2002, realizado na Coreia e no Japão, não havia equipa mais favorita do que a França, campeã do mundo quatro anos antes, com uma frente de ataque que metia, de facto, medo. Tinha o melhor marcador de Inglaterra (Thierry Henry), o melhor marcador de Itália (David Trezeguet), o melhor marcador de França (Djibril Cissé), tinha Zinedine Zidade, Robert Pires e Patrick Vieira. E o Senegal? Era um estreante em fases finais, e quase toda a equipa jogava no futebol francês. Era o jogo de abertura do torneio e esperava-se uma entrada “soft” da equipa então orientada por Roger LeMerre.

Noventa minutos depois, tinha-se materializado uma das grandes surpresas da história dos Mundiais. Aos 30’, Djorkaeff perdeu uma bola no meio-campo e El Hadji Diouf acelerou pela esquerda. Deixou Lebouef pelo caminho, fez o cruzamento, Barthez não agarrou e Bouba Diop estava no sítio certo para fazer um golo do qual a França nunca recuperou neste Mundial e que lançou o Senegal para uma campanha histórica – os “bleus” empataram com o Uruguai e perderam com a Dinamarca e ficaram pela fase de grupos, os africanos, com mais dois empates, seguiram para os “oitavos”, onde eliminaram a Suécia, e perderam com a Turquia nos “quartos”.

O Senegal, claro, quer que a história se repita 24 anos depois. E tem algo mais a provar neste Mundial, depois do que aconteceu na recente final da Taça das Nações Africanas – a equipa retirou-se de campo em protesto por, durante o tempo de compensação, ter tido um golo anulado e um penálti assinalado a favor de Marrocos. Os “Leões de Teranga” acabariam por voltar ao campo, Diaz falhou o penálti para os marroquinos, e o Senegal acabou por ganhar 1-0. Dois meses depois, a Confederação Africana de Futebol deu o título a Marrocos, com uma vitória por 3-0.

Lamine Camara, médio do Mónaco, ainda não tinha nascido quando os “Leões de Teranga” fizeram história no Mundial de 2002, mas estava em campo na final da CAN em 2025 e não se sente um perdedor, apesar da decisão posterior. “Estava a ver o PSG-Chelsea na Champions e ouvi os comentadores a dizer que o Senegal tinha perdido o título. Não me incomodou. Joguei e ganhei em campo. Nada mudou”, contou o médio ao The Athletic.

Camara, de 22 anos, é um bom exemplo de como o Senegal se apresenta neste Mundial, uma equipa em renovação, com experiência no futebol europeu (20 dos 26 jogam em equipas das “big 5”), e respaldada pela experiência de homens como Sadio Mané, Koulibaly ou Eduard Mendy – e tem Pape Thiaw, um dos heróis de 2002, como treinador. Segundo o médio do Mónaco, o Senegal tem tudo no lugar para repetir a façanha de 2002: “Vai ser um grande jogo. Todos temos a memória desse fabuloso 2002. Temos tudo o que é preciso para defrontar qualquer equipa.”

“Novo capítulo”

Já a França não quer, de todo, que a história de 2002 se repita. Para Didier Deschamps, que deixa de ser o seleccionador francês quando terminar o Mundial, os ecos desse jogo não chegam à sua equipa e nem sequer fala de um potencial ajuste de contas. “Nessa altura, muitos dos meus jogadores ainda não tinham nascido e os outros não tinham idade suficiente para compreender. Vingança? Isso não existe no desporto. É história. Este é um capítulo novo”, disse DD numa entrevista ao site da FIFA, ele que é um dos poucos campeões mundiais como jogador (em 1998) e treinador (em 2018) – os outros são o brasileiro Mário Zagallo e o alemão Franz Beckenbauer.

Deschamps não tem problemas em reconhecer que a França é um dos maiores favoritos neste Mundial, mas tem de começar a justificar o favoritismo logo a abrir, num grupo que tem ainda Iraque e Noruega. “Levantámos o troféu em 2018, chegámos à final em 2022, por isso os nossos adeptos esperam ver a França ainda por aqui a meio de Julho. Somos uma de 10 ou 12 nações que pode realisticamente pensar em ser campeã do mundo. Mas sabem quantas é são campeãs no final? Apenas uma.”

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