A Europa está entre as regiões do mundo onde o stress térmico mais se agravou desde a década de 1970, com um aumento expressivo das temperaturas de “sensação térmica”, uma intensificação do calor nocturno (as chamadas “noites tropicais”) e um alargamento da época do ano em que o corpo humano é exposto a condições perigosas.
“O stress térmico já se intensificou à escala global, tornando-se mais grave, mais frequente, mais generalizado e mais duradouro, com impactos reais na forma como as pessoas vivem o clima e as alterações climáticas no seu quotidiano, para uma proporção significativa e crescente da população mundial”, afirma ao Azul a investigadora Rebecca Emerton, primeira autora de um estudo publicado esta segunda-feira na revista científica Nature Climate Change.
O estudo apresenta-se como “a primeira análise abrangente à escala global do stress térmico no contexto das alterações climáticas”. Recorre a numa base de dados globais, referentes ao período de 1950 a 2024, e ao Índice Climático Térmico Universal (UTCI, na sigla em inglês), que estima o calor sentido pelo corpo humano tendo em conta a temperatura, a humidade, o vento e a própria radiação solar.
“O Índice Climático Térmico Universal (UTCI) pode diferir substancialmente da temperatura do ar. Durante a recente onda de calor de Maio de 2026 na Europa, por exemplo, o UTCI atingiu frequentemente valores 4 graus Celsius superiores à temperatura do ar no pico diurno. Isto realça a importância de ter em conta outros factores, tais como a humidade e a radiação”, refere a co-autora Claudia Di Napoli, citada num comunicado do Copérnico, o serviço europeu de observação da Terra.
O estudo mostra que, nos dez dias mais quentes de cada ano, a sensação térmica máxima aumentou em grande parte do globo, mas o aquecimento mais forte ocorreu precisamente na Europa, assim como no Norte de África e na Península Arábica, onde o acréscimo chegou a 4 graus Celsius e, localmente, a 5 graus Celsius, quando se comparam os últimos dez anos com a década de 1970.
Copérnico
O risco das noites tropicais
As temperaturas mínimas nocturnas mais elevadas aumentaram ainda mais depressa do que as máximas diurnas, o que agrava o risco de saúde pública por reduzir a capacidade de o organismo se recuperar durante a noite. Globalmente, as dez noites mais quentes do ano aqueceram a um ritmo médio de 0,32 graus Celsius por década, acima de 0,27 graus Celsius registados nos dez dias mais quentes.
Essas noites tropicais, definidas como aquelas em que a temperatura mínima não desce abaixo dos 20 graus, afectam negativamente a recuperação do corpo ao limitar o arrefecimento nocturno necessário ao bom funcionamento do organismo após a exposição ao calor durante o dia.
“O stress térmico é perigoso durante o dia, quando atinge a sua intensidade máxima, mas o stress térmico prolongado, especialmente quando as condições durante a noite permanecem quentes, impedindo-nos de recuperar eficazmente do calor do dia, exerce uma pressão contínua sobre o organismo”, sublinha Rebecca Emerton, cientista do Centro Europeu de Previsão Meteorológica a Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês) do Copérnico.
Rebecca Emerton recorda que os riscos das temperaturas elevadas para a saúde incluem a exaustão por calor e a insolação. O stress térmico agrava também doenças subjacentes, tais como as doenças cardiovasculares e respiratórias. Os idosos e as crianças pequenas integram os grupos considerados mais vulneráveis à exposição prolongada ao calor.
O artigo sublinha que o calor já é “a principal causa de mortalidade relacionada com fenómenos meteorológicos em todo o mundo”, agravando doenças cardiovasculares, respiratórias e também condições de saúde mental.
“Este estudo fornece provas convincentes de que o stress térmico já não é um risco emergente, mas sim uma característica determinante do clima actual, afirma Umberto Modigliani, director interino de previsões do ECMWF, citado na nota de imprensa.
“Ao registar a forma como é vivenciado pelas pessoas, tanto de dia como de noite, esta investigação revela uma clara intensificação que já está a afectar as sociedades em todo o mundo. Isto reforça o papel fundamental de informações meteorológicas e climáticas fiáveis e de confiança para ajudar as comunidades a antecipar, adaptar-se e proteger vidas e meios de subsistência”, acrescenta Modigliani.
O calendário do calor mudou
Os autores deixam no estudo um aviso relevante para a Europa, onde o calor extremo continua a ser relativamente raro em termos absolutos, mas cresce com rapidez em termos relativos. “A extensão geográfica do stress térmico perigoso expandiu-se, expondo regiões que antes não eram afectadas.”
Daí que enfatizem que as estratégias de adaptação climática terão de responder não só ao calor diurno, mas também ao calor nocturno, através de planos locais de saúde para o calor, sistemas de aviso precoce e intervenções urbanas de protecção da população – centros de arrefecimento, por exemplo, onde grupos vulneráveis possam ir para passar o dia ou a noite (no caso das pessoas em situação de sem abrigo).
A mudança no continente europeu já se vê também no calendário. “Na Europa, o stress térmico moderado começa agora, em média, em meados de Maio, em vez do início de Junho, e prolonga-se até quase Outubro, ao passo que o stress térmico forte começa em Junho, e não em Julho. Para estes níveis de stress térmico, a estação mais curta dos últimos dez anos foi mais longa do que a estação mais longa da década de 1970”, lê-se no estudo.
O agravamento não se mede apenas em graus, mas também em frequência e duração. Em relação à década de 1970, o stress térmico extremo ocorre hoje 2,5 vezes mais na Europa, segundo a distribuição continental de temperaturas UTCI apresentada pelo estudo.
Também os eventos compostos — ou seja, dias de forte calor seguidos de noites tropicais — tornaram-se mais comuns e duradouros. Na Europa, a ocorrência de eventos compostos de um dia aumentou 73%, enquanto os episódios com duração entre 15 e 30 dias são agora 3,4 vezes mais frequentes. As sequências mais longas observadas, até 120 dias consecutivos, quase duplicaram de frequência.
A tendência europeia inscreve-se num quadro global de agravamento acelerado. As regiões subtropicais, entre elas o Sul da Europa, com características específicas do Mediterrâneo, passam agora por até 50 dias adicionais por ano com pelo menos stress térmico forte, em comparação com os anos 1970. O stress térmico forte corresponde a valores iguais ou superiores a 32 graus Celsius no índice UTCI.
Em paralelo, a exposição humana ao calor extremo cresceu de forma marcada: a percentagem da população mundial exposta a pelo menos um dia por ano de stress térmico extremo subiu de 16% para 22%, o equivalente a mais mil milhões de pessoas.
O artigo conclui que esse aumento não é explicado apenas pelo crescimento demográfico: em muitas categorias, o agravamento do próprio stress térmico pesa tanto ou mais do que a expansão da população.
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