João Gamelas demitiu-se do cargo de director clínico para a área hospitalar da ULS Lisboa Ocidental por razões pessoais, mas reconhece que “o problema que se vive na confiança e na relação com os profissionais” pesou na decisão. Segundo a Ordem dos Enfermeiros, o conselho de administração daquela unidade está também sem enfermeira directora desde a segunda semana de Abril.
O médico sai da instituição quando existem várias denúncias sobre o ambiente de trabalho vivido no Serviço de Gestão de Recursos Humanos da ULS, que integra os hospitais São Francisco Xavier, Egas Moniz e Santa Cruz, além de 19 centros de saúde com 40 unidades funcionais nos cuidados de saúde primários. O PÚBLICO noticiou no sábado passado que o director de recursos humanos daquela ULS é acusado de ter prendido uma trabalhadora a uma cadeira com fita-cola para a obrigar a terminar um trabalho que lhe havia pedido.
Em declarações à agência Lusa, João Gamelas — que iniciou o mandato em Setembro de 2024 e terminaria em 31 de Dezembro deste ano — disse que apresentou o pedido de demissão em Março, mas teve de dar dois meses à instituição, tendo deixado o cargo e a Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental no dia 31 de Maio.
Questionado sobre as razões da saída do cargo e da ULS Lisboa Ocidental, onde foi também director de Serviço de Urgência e dirigiu o Serviço de Ortopedia e Traumatologia, o especialista invocou razões pessoais.
“Vou mudar para uma vida mais consentânea com os meus 65 anos de idade, mas deixo com muita pena a instituição, ao fim de tantas décadas, e tantos, tantos amigos, ainda para mais numa situação tão difícil como a que vivemos no momento”, declarou. João Gamelas reconheceu também que “o problema que se vive na confiança e na relação com os profissionais” pesou na decisão que tomou em Março.
Desejou ainda “as maiores felicidades para a organização e para todos, com a confiança de que melhores dias virão”.
Fontes da instituição disseram à Lusa que, apesar de o médico ter alegado razões pessoais para deixar o cargo, a situação tensa vivida nos recursos humanos terá sido um dos factores que o levaram a renunciar ao cargo.
O funcionamento da área de Gestão de Recursos Humanos da instituição levou o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, a enviar, na passada sexta-feira, um ofício à presidente do Conselho da ULS de Lisboa Ocidental, Isabel Aldir, pedindo esclarecimentos sobre a situação.
Degradação do ambiente laboral
No documento, noticiado pelo PÚBLICO, a OE afirma ter tomado conhecimento, no âmbito de visitas realizadas aos hospitais São Francisco Xavier e Egas Moniz, de diversos relatos e preocupações relacionadas com o funcionamento daquela área da instituição.
As situações reportadas incluem referências a degradação do ambiente laboral, excessiva burocratização de procedimentos, dificuldades de relacionamento institucional com profissionais de saúde e lideranças intermédias, atrasos em processos administrativos relevantes para os trabalhadores, bem como preocupações quando ao impacto destas circunstâncias na estabilidade das equipas, nas dotações de enfermagem e na capacidade de resposta assistencial.
Segundo informação transmitida à OE, estas situações são já do conhecimento do Conselho de Administração, não sendo conhecidos, contudo, desenvolvimentos ou medidas adoptadas relativamente às preocupações manifestadas pelos profissionais.
“Devido à gravidade dos relatos recebidos” e ao impacto potencial destas circunstâncias sobre os profissionais e o funcionamento assistencial da instituição, a OE remeteu uma participação à Inspeção-Geral das Actividades da Saúde (IGAS).
Nessa participação, também noticiada pelo PÚBLICO, a Ordem denuncia a actuação da direcção do Serviço de Gestão de Recursos Humanos e anexa uma tomada de posição subscrita por mais de 95% dos directores, gestores e responsáveis de estruturas clínicas e assistenciais da ULS Lisboa Ocidental, dirigida ao Conselho de Administração, na qual são descritas situações de “elevada gravidade”.
A ordem diz que recebeu diversos relatos que “reforçam a preocupação” relativamente ao ambiente laboral existente na ULS Lisboa Ocidental e à actuação da direcção do referido serviço.
Entre os casos denunciados está o de uma trabalhadora com mais de 20 anos de serviço naquele departamento, que terá sido alvo de uma situação descrita por vários profissionais como “particularmente humilhante”. Como o PÚBLICO noticiou, a trabalhadora terá sido agarrada à cadeira com fita-cola pelo director do serviço de recursos humanos. A cena foi presenciada por colegas que tiveram receio de intervir por medo de represálias ou despedimento.
Segundo os relatos recebidos pela Ordem dos Enfermeiros, o episódio terá ocorrido há cerca de duas semanas e incluiu “a utilização de fita-cola e expressões dirigidas à trabalhadora em tom intimidatório”, designadamente: “Não se levanta até terminar o que lhe mandei”.
Sem enfermeira directora desde Abril
No mesmo ofício dirigido ao inspector-geral da Saúde, Carlos Carapeto, a Ordem dos Enfermeiros refere que lhe foi reportado que “a ULS Lisboa Ocidental se encontra sem enfermeira directora desde a segunda semana de Abril”, surgindo o director de recursos humanos identificado como “superior hierárquico” nos horários de enfermeiros gestores e adjuntos, e intervindo em processos de selecção de enfermeiros candidatos, “situação que tem gerado preocupação e perplexidade entre os profissionais”. O cargo era ocupado pela enfermeira Ilda Rosa Roldão.
O Diário de Notícias noticiou, em Março, que a IGAS está a investigar a organização e o funcionamento do Serviço de Gestão de Recursos Humanos, bem como “a legalidade dos processos” de contratação de profissionais no último ano, desde que o director do serviço, André Coelho Dias, assumiu funções.
A agência Lusa contactou a ULS Lisboa Ocidental, mas não obteve resposta até ao momento.
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