Para o leitor menos ávido do nosso mundo contemporâneo, a ciência e os seus paradigmas parecem distantes da filosofia contemporânea, sendo talvez opostos. Não obstante, quando confrontados com a relação entre correntes filosóficas antigas e modelos científicos do mesmo tempo, talvez ele já admita uma coerência entre ambos. Até à modernidade, não havia cisão entre os filósofos e os cientistas. Quando ponderamos sobre o modelo cosmológico mitológico, não há diferença entre os filósofos da natureza e os cientistas, convergiam na mesma pessoa. O modelo antropocêntrico, que acompanha a filosofia clássica, num longo caminho desde a antiguidade grega até à medievalidade, e o modelo aristotélico-ptolemaico em simbiose com a crença religiosa produzem uma visão cosmológica de um universo centrado na Terra. Assim, em vários pensadores convergem tanto o pensamento científico como o filosófico.
Na Modernidade, autores como Descartes, ou Leibniz ainda mantêm um pé nos dois campos, contribuindo tanto para o desenvolvimento filosófico como para o mundo científico. Porém, a expansão do conhecimento, a emergência dos Estados-nação e o avanço científico e tecnológico estendem-se a níveis nunca antes vistos. Ora simultaneamente, aparece um novo modo de produção, que rapidamente se instala na sociedade, oriundo da Escócia pela personificação de Adam Smith. Com o desenvolvimento do paradigma capitalista, apareceu a noção de divisão de trabalho, que introduziu uma métrica da especialização. Cada um deixou de contribuir para o avanço da sociedade em várias frentes, ficando “dono do seu cantinho do universo”, como afirmou Ortega y Gasset.
Não obstante, isto não se traduziu num afastamento da ciência, esta refletiu-se em movimentos filosóficos, como o positivismo, ou em certos autores como Kant, que fez a sua revolução “coperniciana” no âmbito epistemológico. Foi a teoria da evolução de Darwin que levou Nietzsche, pelas palavras de Zaratustra, a proclamar a morte de Deus. A complementaridade entre os desenvolvimentos físicos, científicos e filosóficos tem sido visível, seja pelas diferentes perspetivas sobre a natureza, realidade e existência, que se vão fomentando umas às outras.
A sociedade hodierna caracteriza-se pelo primado tecnológico, onde se procura apenas uma resposta certa, intermediada por uma única lente. Priorizam-se os técnicos, envoltos na sua especialização, num mecanicismo monofocal que fomenta uma ânsia de separar, uma projeção do narcisismo das pequenas diferenças freudianas. Uma fragmentação que se esconde pelo princípio da unificação, encoberta pela premissa do trabalho conjunto, em que cada indivíduo contribui unitariamente no seu canto. Cria-se, portanto, a massificação do indivíduo, que, sem saber, contribui para o conhecimento.
“É preciso sair da ilha para ver a ilha.” Como poderemos nós embarcar nesta viagem de autodescobrimento se todos os caminhos se encontram vedados ou com portagem? O saber foi afunilado por um só caminho, a envergadura do pathos técnico, elevando-se ao nível matemático da procura pela resposta certa.
A própria filosofia especializou-se, seguiu o método técnico, virou trabalho formal e assim só relevante no círculo académico. Virou técnica, inacessível, guardada por chavões que ninguém conhece, virou as costas ao mundo que dela muito carece. E assim foi afastada da cena, delegada para segundo plano, e é mais relevante a reflexão do treinador de ginásio do que a do professor que estudou durante mais de 30 anos. Isto germina a frase mais comum, dita por qualquer pai desiludido ou tio mais grosseiro, “ninguém te paga para pensares, com isso vais acabar professor”. Desvaloriza-se, deste modo, qualquer jovem que apresente um livre pensar, e a ideia do educador, mais necessário do que nunca, porque quando nos focamos apenas na inteligência artificial esquecemos que a inteligência essencial está na base de tudo.
Contrariamente ao que se crê, na filosofia está contida a fonte que liga todos os saberes. A filosofia é o barco que nos permite sair da ilha e conhecermo-nos a nós próprios. É importante salientar que a filosofia não deve ser uma contraposição à técnica, a filosofia deve dar o parecer humano no grito da técnica. O mundo precisa de pensadores, até porque hoje ninguém tem tempo para pensar, devemos fomentar o tédio de onde brotam as reflexões. Caso isto não aconteça, até pagarão para pensarem, mas aí talvez já ninguém o consiga fazer.
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