Três meses antes de morrer, aos 91 anos, Jane Goodall estava na Tanzânia. Famosa por manter um ritmo de viagens implacável até aos 80 e 90 anos, Goodall continuou a dar palestras sobre a importância de proteger a vida selvagem. Encontrava‑se numa digressão de conferências nos Estados Unidos quando morreu, em Outubro.
“Dava uma palestra a qualquer momento, espalhando a mensagem às pessoas, e é por isso que nunca parou”, disse o filantropo e conservacionista Dax Dasilva, que esteve com Jane Goodall na Tanzânia no ano passado, quando a entrevistou. “Chegava a fazer várias sessões por dia a quem quisesse ouvi‑la, porque o impacto nas pessoas era enorme.”
Dax Dasilva, empresário tecnológico canadiano que também viajou com Goodall até à Amazónia brasileira, em 2023, afirmou que ela compreendia o próprio poder enquanto ícone, não apenas como cientista. Talvez por isso tenha aceitado sentar‑se com Dax Dasilva para gravar uma conversa durante a última viagem que fizeram juntos.
Num vídeo até agora inédito, publicado no YouTube na segunda‑feira, Jane Goodall partilha conselhos sobre como manter a esperança e a motivação perante tantos problemas globais aparentemente irresolúveis.
“Façam simplesmente alguma coisa”, disse.“As pessoas vêm ter comigo e dizem: ‘Bem, olhe para o mundo, olhe para as guerras, para a destruição do ambiente, para a pobreza, o sofrimento, a destruição dos solos pela agricultura industrial. … O que posso eu fazer? Sou apenas uma pessoa’”, contou Jane Goodall a Dax Dasilva. “Temos este dito estúpido: ‘Pensar globalmente, agir localmente’. Mas não — agir localmente primeiro e fazer alguma coisa.”
Incentivou as pessoas a agir em função daquilo que lhes importa, afirmando que isso pode contrariar sentimentos de impotência.
“O que é que lhe importa na sua comunidade?”, perguntou. “Talvez não goste do lixo… Organize limpezas de praias. Junte um grupo para plantar árvores. Faça simplesmente alguma coisa. Isso vai fazê‑lo sentir‑se melhor.”
Conservacionista improvável
Goodall foi uma primatóloga e conservacionista improvável. A sua carreira começou quando tinha pouco mais de 20 anos: era secretária e empregada de mesa em Londres, sem formação científica, mas com a ambição de estudar animais em África. Juntou dinheiro para visitar uma amiga no Quénia, onde conheceu o paleontólogo Louis Leakey, que estudava a evolução humana em África.
Louis Leakey deu‑lhe o emprego de sonho, enviando‑a para a Tanzânia em 1960 para observar chimpanzés, na esperança de obter pistas sobre o comportamento humano. Jane Goodall integrou‑se no mundo desses animais, aprendendo através de uma observação paciente, e acabou por transformar a nossa compreensão da espécie — e de nós próprios.
Ao longo de anos de trabalho de campo em comunidades africanas, conheceu muitas pessoas e percebeu a importância de educar e capacitar as comunidades como parte essencial da protecção do mundo natural.
“Quando descobri, em 1986, que o número de chimpanzés estava a diminuir em toda a África e que as florestas estavam a ser destruídas, foi aí que deixei definitivamente Gombe [uma área protegida de primatas], porque pensei: ‘Bem, tenho de tentar fazer alguma coisa’”, disse Jane Goodall.
Viajou por África e tomou conhecimento da destruição dos habitats e da caça furtiva que estavam a prejudicar os chimpanzés, mas começou também a compreender a pobreza e o sofrimento que levavam as pessoas a essas práticas.
“Aprendi sobre a situação dramática de tantas pessoas que vivem dentro e em redor dos habitats dos chimpanzés”, disse Goodall.
Percebeu então que ajudar os chimpanzés e ajudar as pessoas fazia parte da mesma missão.
Grande parte do trabalho de Jane Goodall nos últimos anos centrou‑se na educação dos mais jovens; através da sua organização Roots & Shoots (raízes e rebentos, numa tradução livre para o português), trabalhou para capacitar a próxima geração de conservacionistas.
Mas sublinhou a Dax Dasilva que as pessoas mais velhas são igualmente essenciais para esse esforço.
“Não é verdade que as pessoas mais velhas não possam mudar”, disse Goodall. “Muitas, muitas pessoas — pessoas mais velhas — aproximaram‑se de mim depois de uma palestra e disseram: ‘Bem, Jane, eu já tinha desistido, mas prometo‑lhe que vou fazer a minha parte’.”
Apic/Getty Images
Elefantes na Tanzânia
Enquanto Dasilva e Goodall viajavam juntos no Parque Nacional de Saadani, na Tanzânia, depararam‑se com uma manada de elefantes que se aproximou do carro. Há não muito tempo, a população de elefantes do parque tinha estado quase extinta; hoje existem centenas, graças a esforços concertados de conservação.
“Ver elefantes assim, sem medo, a caminhar entre nós, foi mágico”, disse Jane Goodall.
Dax Dasilva afirmou que os elefantes eram apenas um exemplo entre muitas histórias de sucesso que testemunhou ao viajar com Goodall. “Situações aparentemente impossíveis e sombrias podem melhorar”, disse. Goodall concordou.
“Outra coisa sobre a qual escrevi foi a extinção de animais na natureza e como, simplesmente porque alguém diz: ‘Não vou deixar que isto aconteça’, e através da reprodução em cativeiro ou da protecção na natureza, como no caso dos elefantes de Saadani, eles estão a regressar, de novo, a grandes manadas”, disse.
Jane Goodall sublinhou que a esperança nasce da acção. Dê o primeiro passo, disse, para perceber que pode fazer a diferença. “Depois vai querer fazer mais. E acabará por inspirar outros a juntarem‑se”, concluiu Goodall.
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