O Coração Ainda Bate. O silêncio dos adultos

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Faço a viagem de regresso a Lisboa e, como sempre, a bagagem de maior volume vai na minha cabeça: o que vivo em três dias ganha mais peso do que as poucas mudas de roupa que vieram comigo.

O meu pai fará 90 anos no próximo domingo. Às vezes, em conversa com ele, menciono a proximidade do aniversário, sabendo que dali a pouco, ele já não se lembrará da data, do feito. Aliás, o meu pai abana a cabeça quando lhe falo dos 90 anos e diz com ar displicente: “juízo!”. Rejeita a idade porque ninguém quer ser muito velho.

Quase todos queremos chegar a velhos, mas sermos muito velhos é outra coisa. É o medo da dependência, da debilidade, do abandono.

Com a entrada do verão, o meu pai fica inquieto. Já lhe conheço o olhar esgazeado de outras temporadas difíceis. Eu própria sossego com o frio, porque o calor nos transborda uma loucura escondida. Fui escutando o meu pai nestes dias e mantenho a dúvida, sobretudo a partir do momento em que ganhei mais confiança e consciência de mim: conheço bem este homem? Nós nunca conhecemos bem os nossos pais. Os pais são feitos de silêncios, segredos de décadas, às vezes, surpresas. Um filho nunca conhecerá suficientemente bem os seus pais. Já os pais partem em vantagem no que sabem sobre os seus filhos. Viram neles o medo e o primeiro sorriso.

Os pais podem passar a vida toda num faz de conta que os asfixia. Não raras vezes, um acidente ou incidente, precipitou um silêncio mais fundo do que uma sepultura. E, nesse silêncio, ergueu-se o medo, o desalento, o temor.

Há filhos que nunca puderam compreender verdadeiramente os seus pais porque nunca lhes conheceram a verdade. Há pais que viveram o plano B, porque o plano principal lhes escapou e os filhos não os percebem. Os filhos do plano B também vivem aquém do que sonharam. O sonho incompleto pode passar entre gerações.

Tenho a certeza de que não conheci bem os meus pais. Não fiz as perguntas que podia ter feito. Ia dizer que o respeito me tinha impedido de as fazer, mas não é respeito. É pudor e medo. É uma cerimónia bacoca sem razão de ser. Com a falta de verdade, e o distanciamento alimentado, nem pais nem filhos podem ser felizes.

Eu não precisava de saber tudo sobre os meus pais, mas gostava de os compreender ainda melhor. Idealizamos os nossos pais porque são os primeiros heróis que conhecemos: são eles que nos tiram do banho com uma toalha maior que nós, que nos vão ver a meio da noite, que nos dão a mão quando o mundo parece um gigante quarto escuro. Eu sabia que o mundo me podia falhar, mas a minha mãe estaria sempre a responder ao meu chamamento: “maaaaãe!” – chamava eu de madrugada. E ela vinha.

A minha mãe veio sempre ao meu encontro. Passou por cima das dores todas dela para nos cobrir com o seu amor incondicional. Quando eu, já mais crescida, lhe perguntava que dores tinham sido essas, a minha mãe podia contar um instante de uma vida cheia de momentos infelizes, mas nunca deixava que eu soubesse nem metade. Ficar com a história dela era uma herança que ela não queria que eu carregasse. Seria a dor dela mais a minha. Até disso a nossa mãe nos poupou. No entanto, eu gostava de saber mais.

Quanto mais soubermos sobre os nossos pais, melhores adultos seremos, com a certeza de que não queremos repetir erros do passado.

Volto ao meu pai; dele soube ainda menos, mas, depois de viúvo, e já mais vulnerável, como se a armadura se partisse, deixou escapar mais momentos sobre o seu passado difícil. Às vezes, basta a descrição de um momento para percebermos o fundamento da personalidade; uma injustiça, um abuso, uma morte prematura, um luto adiado. Há tanto que em pouco tempo nos pode definir.

90 anos, mesmo que ele não acredite. Em dias bons, o olhar dele vagueia feliz e ainda vai buscar memórias que soube sempre resgatar ao monte de escombros de uma infância infeliz. Mas eu não sei quase nada. Eu e quase todos os filhos não sonhamos o que viveram os nossos pais. Basta ler-lhes o silêncio.

O coração ainda bate.

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