Peugeot e Le Mans: 100 anos marcados por uma vitória de sabor luso

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1992. Ditam as regras que não se deve começar um texto por um número e, neste caso, apenas o algarismo 100 poderia fazer sentido. Mas, nos cem anos da Peugeot nas 24 Horas de Le Mans, há um acontecimento que fala mais alto ao coração nacional: o ano em que um carro com o nome de um português inscrito foi campeão.

Carlos Barros era chefe da equipa de mecânicos do carro número um da Peugeot Talbot Sport, um Peugeot 905B Evo 1-bis, que contava com a perícia dos britânicos Derek Warwick e Mark Blundell e do francês Yannick Dalmas, quando a marca francesa assumiu o pódio.

“Foi uma euforia”, recorda ao PÚBLICO o engenheiro mecânico, que, actualmente, integra a equipa de inspectores da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), nas vésperas de mais uma prova em Le Mans.

Homens aproximam-se de André Boillot e Victor Rigal no seu Peugeot 174 S durante as 24 Horas da Bélgica em 1926
DR

Mas a história da marca do leão na mais emblemática prova desportiva automóvel — que até se realiza “em casa” — passa por mais momentos icónicos, celebrados ao longo deste fim-de-semana, três anos depois da festa do centenário da corrida. As 24 Horas de Le Mans arrancaram em 1923, mas só três anos depois o evento, que, à época, era designado por Grande Prémio de Resistência de 24 Horas, contou com a Peugeot na grelha de partida: no caso, com dois 174 S, ambos desqualificados. O resultado, porém, não esmoreceu a vontade de resistir (afinal, não é disso que se trata Le Mans?). E a marca gaulesa acabaria por marcar presença em 44 das 94 edições, fosse como equipa oficial ou fornecedora de motores.

Pelo caminho, três marcos: além da vitória de 1992, a primeira desde o início da sua participação, num ano em que conseguiu ainda um terceiro lugar, foi capaz de, no ano a seguir, fazer o pleno do pódio com o 905, ainda que Barros recorde o feito com algum amargo de boca. Afinal, o seu carro parecia ter tudo para acabar em primeiro, mas um problema que não foi resolvido à primeira, como recorda ter aconselhado, acabaria por o deixar em segunda posição. O pleno foi festejado, mas o facto de ter terminado “no primeiro lugar dos últimos” não lhe deixa boas recordações.

Precisamos de dar um salto até ao actual milénio para encontrar novamente a Peugeot em destaque, e novamente com um português pelo meio: em 2007, Pedro Lamy fazia equipa com Stéphane Sarrazin e Sébastien Bourdais no 908 HDi FAP que terminou em segundo, mas que já reclamava almejar mais. No ano seguinte, o mesmo bólide colocou-se em segundo (com Nicolas Minassian, Marc Gené e Jacques Villeneuve) e terceiro (Christian Klien, Ricardo Zonta e Franck Montagny) lugares, atingindo o topo em 2009, com a tripla David Brabham, Marc Gené e Alexander Wurz.

Cartaz comemorativo da vitória do Peugeot 908 HDi FAP nas 24 Horas de Le Mans em 2009
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Golpe de marketing

Há em Le Mans uma mítica quase palpável, à medida que se caminha entre as centenas de milhares de pessoas que rumam a uma região quase esquecida de França para, durante uma semana, transformar vila, circuito e arredores no centro do mundo (pelo menos, automobilístico).

Em Le Mans, no Circuito de La Sarthe, vêem-se verdadeiras inovações, a maioria de equipas que têm no seu ADN uma marca premium de cariz desportivo, quer a assumir a presença, quer por detrás das performances apresentadas. O que faz da Peugeot uma espécie de pária entre os hipercarros. Mas, se por um lado, é uma marca generalista, por outro, já provou que sabe a matéria no que a bólides de desempenho diz respeito. E a presença em Le Mans é um real trunfo se se quer vingar entre emblemas emocionais, como a Peugeot se afirma.

Talvez tenha sido essa premissa que fez com que a marca do leão regressasse a Le Mans, em 2023, com o hipercarro 9×8, idealizado pela Peugeot Sport, que não viria a subir ao pódio da prova francesa. Mas isso pode não interessar. É que em Le Mans, mais do que o que se apresenta, estão ideias que podem a vir resultar num futuro próximo, quer noutras disciplinas de desporto motorizado, quer mesmo no mundo dos modelos de produção em série. Por isso, não é à toa que Le Mans foi escolhida para revelar o protótipo, em 2025, e a versão final, nesta sexta-feira, do E-208 GTi. Afinal, é de emoção que se fala por aqui.


O PÚBLICO viajou a convite da Peugeot

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