A pianista Maria João Pires afastou esta quarta-feira o regresso ao activo para um derradeiro concerto, depois de ter terminado a sua carreira como intérprete há quase seis meses, mas admitiu voltar aos estúdios para “fazer algumas gravações”.
“Concertos não, mas talvez ainda possa fazer algumas gravações”, afirmou a pianista, em declarações aos jornalistas após ser distinguida com o doutoramento Honoris Causa atribuído pela Universidade de Évora (UÉ).
Maria João Pires contou que, depois de ter terminado a carreira, os seus dias são passados em geral a “ensinar, dar aulas, encontrar alunos e fazer workshops“, revelando que, de vez em quando, ainda toca piano.
“Eu gosto de tocar, mas passei uns meses sem conseguir tocar, porque fiquei cansada. A minha carreira cansou-me”, salientou.
Nas declarações aos jornalistas, a pianista confessou que gostava de ter sido docente desta universidade, explicando que tal “não se proporcionou”, devido à sua vida profissional: “Não me deu tréguas”, sublinhou.
Quanto ao doutoramento Honoris Causa atribuído pela academia alentejana, a artista disse ter necessidade de agradecer a todos os que contribuíram para esta distinção, e acrescentou desconhecer se a merece.
“Mas vou aproveitá-la da melhor forma e que seja para mim uma partilha com os outros. Gostava de a partilhar com todos”, realçou, reconhecendo que a cerimónia de atribuição “foi, sob o ponto de vista emocional, muito forte”.
Já no discurso que proferiu na cerimónia, na Sala dos Actos da UÉ, Maria João Pires alertou para o actual estado do mundo, questionando-se: “Não será urgente neste momento da história recriar uma nova Renascença?”
Lusa/Nuno Veiga
“As escolas correm hoje o risco de se tornarem excessivamente influenciadas por uma sociedade tecnológica e pela presença crescente da inteligência artificial (IA), uma ferramenta já totalmente indispensável e em muitos aspectos extraordinária”, referiu.
A pianista considerou que “o crescimento das inteligências artificiais generativas e os enormes interesses económicos que as acompanham” colocam a sociedade “perante uma transformação profunda”.
“Essa transformação não é neutra, interroga a forma como pensamos, como escolhemos, como nos expressamos e até mesmo a forma como somos ouvidos”, frisou, avisando que “existe o risco de a concentração de poder tecnológico e económico vir a enfraquecer princípios fundamentais das democracias”.
Segundo a artista, entre outros direitos, o de cada um poder desenvolver e afirmar o seu próprio talento, sem condicionamento e sem formatação. Quanto a este risco, afirmou, “é algo que já está a acontecer”.
“Essa influência começa também a manifestar-se na forma como muitos aspirantes artistas se afastam com rapidez preocupante da realidade profunda da criação, da verdade e da dignidade”, acrescentou.
A 1 de Novembro de 2025, Maria João Pires, de 81 anos, anunciou ter terminado a sua carreira como intérprete, depois de, em Junho desse ano, ter sofrido um problema de saúde que a afastou dos palcos, afirmando estar, então, num “processo de mudança radical”.
Esse anúncio foi feito no discurso de agradecimento do prémio Helena Vaz da Silva, entregue numa cerimónia na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, tendo a artista afirmado que adoeceu porque tentou “ultrapassar-se e ir até limites proibidos”.
Nascida em Lisboa, em 23 de Julho de 1944, Maria João Pires começou a tocar piano com 3 anos, idade em que diz ter-se apaixonado pela música.
A artista, uma premiada intérprete de Schubert, compositor com que também foi nomeada para os Grammy, é a mais internacional e reputada dos pianistas portugueses, com um percurso artístico que remonta a finais dos anos de 1940, quando se apresentou pela primeira vez em público, aos 4 anos.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





