Há slogans que são tão bons que quase conseguem esconder a parte desconfortável da realidade. A recente campanha dos Jogos Santa Casa conseguiu um desses pequenos milagres publicitários: “Quando joga um português, ganham logo 2 ou 3.” Bonito. Redondo. Solidário. Quase dá vontade de comprar uma raspadinha só para sentir que se acabou de fazer voluntariado.
A campanha visa explicar para onde vai o dinheiro das apostas. Diz-nos que as receitas dos Jogos Sociais do Estado revertem para fins sociais, culturais, científicos, desportivos e comunitários. E isso é verdade. Não é essa a questão. O busílis é a parte que fica fora do anúncio: quando joga um português, ganham logo 2 ou 3; quando perde, perde sozinho.
Perde dinheiro. Perde sono. Perde paz. Perde confiança. Perde a capacidade de contar a verdade. Perde a noção do buraco onde está metido. Perde a família, às vezes. Perde a
casa, em casos extremos. Perde a vida, quando a vergonha e o desespero chegam primeiro do que a ajuda. Sim, perde a vida – leu bem. Mas isso, claro, dava uma campanha menos simpática e colorida.
O problema é que a dependência do jogo não funciona como um passatempo com efeitos secundários ocasionais. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o jogo pode provocar danos financeiros, ruptura familiar, doença mental, pobreza, violência doméstica e suicídio. Não estamos, portanto, apenas no domínio do entretenimento. Estamos também no domínio da saúde pública.
Mas nós somos um país curioso. Tratamos o tabaco como perigo, o álcool com cautela crescente, e o jogo como angariação de fundos para beneficência. O tabaco leva imagens de pulmões destruídos. O jogo leva anúncios com música, esperança e gente simpática. O álcool não pode ser vendido como solução para a solidão. O jogo pode ser vendido como contributo para a sociedade. É uma criatividade regulatória muito nossa.
E depois há a raspadinha, essa instituição nacional do “só mais uma”. Está no café, na papelaria, no quiosque, ao lado do jornal, perto da bica. Não precisa de app, password, verificação de identidade ou cartão bancário. Está ali: acessível, rápida, barata, repetível. Um casino instantâneo em formato de rectângulo.
O estudo Quem Paga a Raspadinha?, da Universidade do Minho para o Conselho Económico e Social, concluiu que o consumo frequente de raspadinhas é mais comum entre pessoas com baixos rendimentos. Ou seja: quem tem menos dinheiro é mais exposto a um produto cujo principal atractivo é a possibilidade, quase sempre ilusória, de ter mais dinheiro. Chamamos a isto “jogo social”. Social, de facto, é. Talvez não no sentido em que gostaríamos.
E, quando alguém se perde no jogo, a pergunta volta quase sempre para o indivíduo: porque é que não parou? Porque é que mentiu? Raramente perguntamos: porque é que o jogo estava em todo o lado? Porque é que a publicidade era tão leve? Porque é que a auto-exclusão não era verdadeiramente transversal? Porque é que o tratamento não estava disponível como devia? Porque é que as receitas são apresentadas com tanto detalhe e os danos com tanta timidez?
Não se trata de negar que os Jogos Sociais financiam áreas importantes. Trata-se de recusar que essa verdade seja usada para tornar o jogo moralmente confortável. A publicidade emocional ao jogo é perigosa: não porque minta totalmente, mas porque escolhe muito bem a verdade que mostra. Mostra o beneficiário da receita. Não mostra o jogador que perdeu o salário de um mês em poucas horas. Mostra o “ganham 2 ou 3”. Não mostra os muitos que perdem tudo.
É essa omissão que devia incomodar-nos. A solidariedade não pode depender da perda silenciosa de pessoas vulneráveis. Um Estado social não devia precisar de romantizar apostas para financiar boas causas. E uma sociedade adulta devia ser capaz de dizer duas coisas ao mesmo tempo: sim, os Jogos Sociais financiam áreas importantes; sim, o jogo causa danos graves e deve ser regulado com muito mais seriedade.
Talvez esteja na altura de trocar o “jogue com responsabilidade” por algo mais honesto: “O Estado ganha sempre. Alguns jogadores não voltam a ganhar a vida que tinham.” Fica menos publicitário, admito. Mas talvez seja por isso mesmo que precisamos de o dizer. Se há coragem dos partidos e agentes políticos para isso? Não há, não houve e duvido que venha a existir.
Foi por isso que lancei uma petição pública sobre a prevenção, tratamento e regulação dos danos do jogo em Portugal. Não contra quem joga, mas a favor de quem precisa de ajuda antes de perder tudo. Porque não é neste estado de coisas em que acredito.
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