“Que segredo tão árduo e tão profundo”: Camões, quinhentos anos de vida

0
9

Camões, o mestre das palavras “peregrinas”, directa ou indirectamente moldadas a partir do latim e do grego, nunca usou o adjectivo “célere”, nem o verbo “acelerar”, nem vocábulos desta família que então se aclimatava à língua portuguesa. Todavia, atentíssimo ao próprio ritmo da transformação do mundo, mencionou com insistência a pressa, a velocidade, o movimento. Diremos que viveu um tempo de “aceleração” da História? Talvez o poeta preferisse outro termo, mas não iria rejeitar o conceito.

Como se mede ou calcula a “aceleração” da História? Se é verdade que esta linguagem figurada levanta algumas reservas, é igualmente certo que nos ajuda a compreender grandes processos de mudança, seja o que hoje está em curso, seja qualquer outro – desde logo, aquele que no século XVI teve lugar. Lembremos o múltiplo impacte das viagens oceânicas; lembremos a divulgação de conhecimento estimulada pela imprensa, que facilitou, a uma escala vasta, a partilha de gravuras, mapas e textos, traduzidos ou na versão original; lembremos a consciência (ora entusiasmada ora amarga) da novidade. “O mui longe nos é perto”, exclamou Diogo Velho da Chancelaria, em trovas datadas de 1516 e incluídas no Cancioneiro Geral; “sabem mais dezasseis anos d’agora que sessenta dos passados”, enfatizava Jorge Ferreira de Vasconcelos no discurso de uma personagem da comédia Aulegrafia (c. 1550?). Confiante no progresso e na democratização da ciência, até pelo recurso aos idiomas vulgares (desafiando a tradição que privilegiava o latim), o médico Leonardo Fioravanti arriscou uma profecia, em Dello specchio di scientia universale (Veneza, 1564): “forse un giorno verrà tempo che tutti saremo Dottori a un modo.”

Camões respirou este ar, experimentou o sabor do espanto e da curiosidade que eleva o espírito, mas também o desgosto e a desilusão perante a alma pequena e a desordem. “Quem pode ser no mundo tão quieto” (i.e., tão estoicamente impassível) que se não perturbe com o desconcerto? – pergunta, actual e próximo. No meio de “tanta tormenta e tanto dano”, “tanta guerra, tanto engano”; numa existência que terá sido atribulada, mais impressiona a obra épica, edifício luminoso e sombrio como só um génio melancólico lograria arquitectar e construir.

É Camões, afinal, o herói d’Os Lusíadas? É, sem dúvida, a figura que aí sobressai, senhor do seu poema e da sua emoção, pronto a mostrar-se renascendo das cinzas a que o desencanto pode por momentos reduzi-lo. Para lá dessa imagem definida no papel, porém, há um Camões que nos escapa, fascinante: o homem-autor, cérebro, mão e coração; o “bicho da terra” capaz do sublime, capaz de se transcender por qualquer coisa a que “furor” empresta nome e aura de prodígio. Melhor que ninguém, disse-o Jorge de Sena no conto “Super flumina Babylonis”.

Resta pouca informação segura a respeito de Luís de Camões. O que escreveu, porém, garante-nos que teve um palácio – o da memória – e um reino – o da inteligência e da fantasia. O poeta fala-nos, toca-nos, provoca-nos; o seu texto exige a cada leitor reflexão e pensamento. Chegamos à última estrofe d’Os Lusíadas e apercebemo-nos de que mal começámos a aventura. Que bom ter havido um dia em que nasceu Camões.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com