Quem nunca contou moedas não sabe o país onde vive. Falta ordenado para o mês, que se arrasta longo e demorado, enquanto as despesas se precipitam com uma rapidez cruel, são mais oito cêntimos no combustível, depois mais cinco, e de repente encher o depósito uma única vez consome 10% do salário mínimo nacional, como se fosse um luxo e não uma necessidade. E são as compras, sempre mais caras, e são os filhos que precisam de calças novas porque cresceram sem pedir licença, e de sapatilhas que já não cabem no pé porque o tempo não espera pela carteira. Vive-se atolado de dificuldades, numa espécie de resistência diária e só se sensibiliza verdadeiramente quem as vivencia ou quem já as viveu na pele, sem filtros, sem romantismos.
O episódio com que titulo esta crónica é isso tudo, verídico, sem filtros e talvez nem gostasse de o partilhar, mas hoje, que já consigo rir-me dele com alguma distância, parece-me o ponto de partida mais honesto e mais pertinente. Estava a dar os meus primeiros passos no jornalismo, ainda com aquela mistura de entusiasmo e ingenuidade que só os começos têm. Num primeiro emprego recebia 200 euros mensais, depois passei para um segundo onde ganhava 500 euros a recibos verdes, ainda a viver na casa dos meus pais, mas com deslocações diárias para Viseu, que não se pagavam com vocação.
Numa dessas manhãs acordei cedo porque tinha um direto às oito horas em Mangualde, numa escola. Reparei que o ponteiro do combustível estava na reserva e decidi ir colocar os últimos dez euros que sabia ter na conta, confiando nessa pequena margem como quem se agarra a um fio de esperança. Para meu espanto, o cartão deu erro. Liguei ao meu pai para que viesse pagar o valor, enquanto eu seguia para o trabalho com a sensação desconfortável de vazio, sem um cêntimo na carteira, sempre naquela espera incerta de receber entre o dia 4, 5, 6, 7 ou até mesmo 8 de cada mês, numa rotina própria de quem fica refém dos recibos verdes.
Fiquei irritada de uma forma que hoje reconheço como desproporcional, mas que na altura era apenas o reflexo do cansaço acumulado. Tinha confirmado na noite anterior o saldo bancário. Como tinham desaparecido os dez euros? Descobri, novamente consultando a conta corrente, que sendo associada de uma instituição ligada ao jornalismo cuja quota mensal era precisamente de dez euros, essa quota me tinha sido levantada por débito direto, fora da data que eu tinha pedido (sempre depois do dia 10). O meu acesso de fúria levou-me a fazer um telefonema num registo raro de agressividade vocal e a cancelar nesse mesmo dia a assinatura, exigindo explicações por não terem respeitado o acordo. Visto à distância, tudo me parece demasiado triste: o nervosismo, a sensação de estar encurralada por uma quantia tão pequena, a ideia momentânea de que não havia saída.
É muito bonito dizermos que somos filantropos, aconselhar à poupança alheia como se fosse uma questão de disciplina moral, encontrar beleza em cada percalço como quem observa de fora, sem nunca ter sentido aquele frio no estômago de olhar para a conta bancária e ver dez euros como última linha de defesa. As memórias de viver no limite são algumas, talvez demasiadas, umas na primeira pessoa, outras refletidas nos que me rodeiam, todas elas com a mesma tonalidade de inquietação. Lembro-me de um amigo, profundamente honesto, que me contou que, depois de levar o pai a uma consulta médica, decidiu convidá-lo para comer leitão assado, na tentativa de cumprir um desejo antigo e adiado. No final, percebeu que não tinha dinheiro suficiente para pagar o repasto. Corou de vergonha, fez cálculos rápidos entre cartões e moedas, e conseguiu liquidar o valor discretamente, sem que o pai se apercebesse de que o filho tinha ficado a zeros.
Dizer que só a saúde importa é uma verdade inquestionável, mas é também uma frase incompleta, porque o desgaste provocado pela falta de dinheiro corrói silenciosamente essa mesma saúde, alimenta discussões, instala preocupações persistentes, ocupa o espaço mental que deveria ser de descanso. Quando vejo alguém na fila do supermercado aflito a procurar moedas que cheguem, numa ansiedade que não tem nada a ver com ter troco certo, mas com a possibilidade real de não conseguir pagar, apetece-me adiantar-me com um “eu pago”, não porque tenha dinheiro a mais, mas porque conheço aquele sufoco, aquela sensação de enjoo, aquele instante em que o mundo parece encolher à dimensão de um terminal de pagamento.
Há uma dignidade silenciosa nesses momentos que raramente é reconhecida e como por magia o dinheiro lá aparece certinho e eu respiro também. Para estas despesas vai-se abrindo espaço na carteira, mas há outras que se perdem num forro invisível, como se nunca fossem urgentes. Um dentista, por exemplo, vai sendo adiado até deixar de o poder ser. Os dentes vão-se perdendo devagar, por vezes com uma dor que se aprende a calar, e com eles esbate-se também uma parte da dignidade. A saúde oral devia ser consagrada no Serviço Nacional de Saúde como mais do que o tratamento de cáries, porque um sorriso cuidado não devia ser uma questão estética, mas antes uma questão de igualdade.
E depois ouvimos falar de lucros de milhões, de resultados históricos, de indicadores positivos que parecem pertencer a outro país, e percebemos que a maioria dos que nos governam não sabe, nem nunca soube, o que é olhar para a conta bancária e ver apenas dez euros, ou olhar-se ao espelho e ver a falta de dentes por falta de dinheiro.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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