Sem mencionar Trump, Papa condena “grupo de tiranos” que assolam o mundo

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O Papa Leão criticou duramente os líderes que gastam milhares de milhões em guerras e afirmou que o mundo está a ser “devastado por um grupo de tiranos”, em declarações invulgarmente contundentes proferidas nos Camarões, esta quinta-feira, dias após ter sido atacado pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, nas redes sociais.

Leão, o primeiro Papa norte-americano, também condenou os líderes que utilizam linguagem religiosa para justificar guerras e apelou a uma “mudança de rumo decisiva” num encontro na maior cidade das regiões anglófonas dos Camarões, onde um conflito latente, que remonta a quase uma década, já causou milhares de mortos.

“Os senhores da guerra fingem não saber que basta um momento para destruir, mas que, muitas vezes, uma vida inteira não chega para reconstruir”, afirmou o pontífice. “Fecham os olhos ao facto de se gastarem milhares de milhões de dólares em morte e devastação, enquanto os recursos necessários para a cura, a educação e a restauração não se encontram em lado nenhum.”

“Um mundo de cabeça para baixo”

Os ataques de Trump a Leão — lançados na véspera da ambiciosa digressão do Papa por quatro países africanos e repetidos ao final de terça-feira — causaram consternação em África, onde vive mais de um quinto dos católicos do mundo.

Leão, que manteve um perfil relativamente discreto durante a maior parte do seu primeiro ano como líder da Igreja (que conta com 1400 milhões de fiéis), emergiu como um crítico acérrimo da guerra que começou com os ataques dos EUA e de Israel ao Irão.

A Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, líder espiritual de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo, afirmou na quinta-feira que apoiava o Papa no seu “apelo corajoso por um reino de paz”.

Falando na cidade anglófona de Bamenda, o pontífice também criticou severamente os líderes que invocaram temas religiosos para justificar guerras. “Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para o seu próprio ganho militar, económico e político, arrastando o que é sagrado para a escuridão e para a imundície”, disse. “É um mundo de cabeça para baixo, uma exploração da criação de Deus que deve ser denunciada e rejeitada por todas as consciências honestas.”

Donald Trump iniciou as suas críticas a Leão no domingo, quando apelidou o Papa de “fraco no combate ao crime e terrível na política externa” numa publicação na Truth Social. O Presidente dos EUA voltou a atacar Leão nas redes sociais ao final de terça-feira. Na quarta-feira, Trump publicou uma imagem de Jesus a abraçá-lo, depois de uma imagem anterior que o retratava como uma figura semelhante a Jesus ter suscitado críticas generalizadas.

Leão disse à Reuters, na segunda-feira, que não deixaria de se pronunciar sobre a guerra do Irão e, desde então, tem evitado responder directamente a Trump.

Cessar-fogo de três dias durante a visita

Após chegar à capital dos Camarões, Yaoundé, na quarta-feira, Leão instou o governo da nação da África Central — liderado pelo Presidente Paul Biya, que aos 93 anos é o governante mais velho do mundo — a erradicar a corrupção e a resistir aos “caprichos dos ricos e poderosos”.

Durante uma missa no aeroporto de Bamenda, na quinta-feira, que contou com a presença de cerca de 20 mil pessoas, o Papa criticou os estrangeiros que exploram a riqueza de África, afirmando que estes contribuem para a pobreza generalizada e para o subdesenvolvimento. “Chegou a hora, hoje e não amanhã, agora e não no futuro, de restaurar o mosaico da unidade, reunindo a diversidade e as riquezas do país e do continente”, afirmou.

A deslocação de Leão a Bamenda suscitou uma ténue esperança de que possam ser dados passos para resolver o conflito local, enraizado na complexa história colonial e pós-colonial do país. Os Camarões, uma antiga colónia alemã, foram divididos pela Grã-Bretanha e pela França após a Primeira Guerra Mundial. A parte francesa obteve a independência em 1960, à qual se juntou, um ano depois, a zona britânica mais pequena, de língua inglesa, a oeste.

Mais de 6500 pessoas morreram e mais de meio milhão foram deslocadas em combates entre as forças governamentais e grupos separatistas anglófonos, de acordo com o International Crisis Group.

Responsáveis religiosos são frequentemente raptados para resgate e alguns foram mortos. O Papa Leão ouviu na quinta-feira o testemunho da Irmã Carine Tangiri Mangu, que descreveu ter sido raptada e mantida refém durante três dias em Novembro passado, e do Imam Mohamad Abubakar, que relatou como homens armados “invadiram” uma mesquita durante as orações no mesmo mês, matando três pessoas.

Uma aliança separatista afirmou que iria observar um cessar-fogo de três dias para permitir que civis e visitantes circulassem livremente durante a visita do Papa. Os esforços para mediar um acordo de paz resultaram em pouco até agora, embora Leão se tenha confessado encorajado pelo facto de a crise “não se ter degenerado numa guerra religiosa” e tenha expressado esperança de que os líderes cristãos e muçulmanos possam mediar o fim dos combates.

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