Os painéis solares estão a substituir os geradores a gasóleo em alguns dos principais cenários de filmagens na África do Sul, à medida que os gigantes do streaming são cada vez mais pressionados a limpar um dos hábitos mais sujos da indústria cinematográfica – a sua dependência dos geradores a gasóleo.
A Netflix filmou a segunda temporada da série de sucesso One Piece na Cidade do Cabo, a sua maior produção em África até à data. Foi também a primeira a ser filmada utilizando um acampamento base alimentado a energia solar, para ter electricidade durante as filmagens vindo de fora da rede.
“O que demonstrámos aqui é que as produções não têm de depender do gasóleo para ter fiabilidade à escala. Existem soluções mais limpas e silenciosas que se integram perfeitamente na forma como as produções cinematográficas já funcionam”, afirmou Abe Cambridge, co-fundador da Cinergy Mobile Power, a empresa sul-africana que forneceu a energia verde para no set de filmagens.
A sua empresa utilizou sistemas de energia móvel limpa em todos os locais de produção, incluindo um sistema de baterias de 400 quilowatts-hora emparelhado com 150 quilowatts de energia solar – o suficiente para alimentar 40 casas europeias médias – nos Estúdios de Cinema da Cidade do Cabo.
No total, segundo a Cinergy, este sistema poupou à produção de One Piece 93 toneladas de emissões de CO2, aproximadamente o mesmo que 30 voos de ida e volta entre Londres e a Cidade do Cabo.
Geradores a gasóleo alimentam filmagens
A indústria cinematográfica utiliza normalmente geração eléctrica a gasóleo para satisfazer as enormes necessidades energéticas de cada produção, especialmente nas filmagens.
O Rocky Mountain Institue (RMI), um grupo de reflexão dos EUA centrado na transição energética, afirmou que os geradores a gasóleo são responsáveis por cerca de 15% das emissões da maioria das produções cinematográficas e televisivas – cerca de 700 mil toneladas de emissões de CO2 por ano.
Mas com a pressão exercida sobre as grandes empresas para se tornarem mais sustentáveis, e com o poder de marketing que advém desse facto, a Netflix e a Disney fazem parte de um número crescente de empresas cinematográficas e de televisão que se comprometeram publicamente a reduzir as emissões para metade até 2030.
O mais recente relatório ambiental, social e de governação (ESG) da Netflix revelou que a principal fonte de emissões do serviço de streaming, cerca de 41% em 2024, provém da produção de filmes e séries.
“Desde 2023, todas as produções com guião que gerimos directamente incorporam alguma forma de energia móvel limpa”, afirmou a Netflix, numa resposta a perguntas envidas por correio electrónico.
“Em locais onde as tecnologias limpas não estão disponíveis em todo o lado, como na África do Sul, estamos a conseguir inovar no sector. Foi o que acontecem no caso de One Piece, onde o nosso investimento em energia solar conduziu a inovações como a criação de um sistema híbrido de baterias alimentado a energia solar, incluindo painéis solares e baterias para alimentar o acampamento base”, afirmou a empresa.
Aumento de preço do petróleo ajuda
A ITV britânica também trabalhou na África do Sul, com a Cinergy a fornecer energia limpa para a actual temporada de I’m a Celebrity, Get Me Out of Here, filmada perto da icónica reserva de vida selvagem do Parque Nacional Kruger.
“Conseguimos reduzir drasticamente o nosso consumo de combustível com as soluções solares e de baterias da Cinergy. Praticamente não usámos gasóleo”, afirmou Phil Holdgate, director de sustentabilidade da produção nos estúdios da ITV.
Embora a empresa possa continuar a contratar geradores de reserva, “a nossa ambição é sempre a de não utilizar combustível”, assegurou Holdgate. O aumento acentuado dos preços do petróleo em consequência do conflito no Médio Oriente constituiu um incentivo suplementar.
“Produzir a nossa própria energia a partir do sol também proporciona alguma protecção contra a volatilidade do mercado dos combustíveis, tais como choques de preços e problemas de disponibilidade”, afirmou Holdgate.
Barreiras para ser verde
Ainda assim, Cambridge reconheceu que houve desafios logísticos ao filmar em locais mais remotos de África. Por exemplo, um tipo de bateria pesa nove toneladas e tem de ser transportado por uma grua. Mas uma vez no acampamento base, pode ser utilizada durante pelo menos um mês.
Cambridge afirmou que, quando a indústria cinematográfica mundial apresenta estatísticas sobre a forma como incorporou a energia limpa nos cenários, muitas vezes significa ligar um gerador a gasóleo a uma bateria.
Isso pode ser eficiente: reduzir a utilização de combustível sujo e é algo que a sua empresa também faz por vezes. No entanto, “o que também fazemos é integrar a energia solar na mistura energética, o que reduz ou elimina totalmente a necessidade de ter um gerador a gasóleo para carregar a bateria”, destacou.
As produções internacionais de grande escala podem pagar tecnologia limpa, mas os custos são uma barreira para os filmes de menor orçamento, disse Marisa Sonemann-Turner, directora de operações da Film Afrika, a empresa de produção local que trabalhou com a Netflix em One Piece.
Os transportes continuam a ser um grande obstáculo, uma vez que existe uma “oferta limitada de soluções de energia móvel limpa e de veículos com baixo teor de carbono“, afirmou.
As viagens de avião são também inevitáveis nas produções internacionais, embora as grandes empresas as compensem frequentemente com créditos de carbono.
Além disso, a tecnologia utilizada nos sets de filmagens é maioritariamente importada. Os painéis solares são comprados na China. Ainda assim, a indústria cinematográfica sul-africana contribui com entre 3500 milhões de rands (180 milhões de euros) e 5400 milhões de rands (276 milhões de euros) para a economia e suporta até 12 mil postos de trabalho, de acordo com as estatísticas fornecidas pela Film Afrika.
O recurso a energias limpas para alimentar a indústria cinematográfica pode ajudar a África do Sul a manter-se um local de produção competitivo. Zizipho Zikhali, director de operações da GreenSet, que faz parte da Academia de Cinema da África do Sul, disse que tudo isto é bastante novo para o sector cinematográfico do país.
“Ainda em 2023, se uma produção tivesse perguntado se os geradores a gasóleo podiam ser substituídos por energia móvel limpa em grande escala, a resposta teria sido não”, disse Zikhali.
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