Foi numa viagem a Madrid, em frente ao Museu do Prado, longe do areal e da maresia, que me ocorreu esta frase, viver é como escrever na areia, e logo a seguir essa espécie de conforto estranho que nos toma quando pensamos que há coisas que resistem ao tempo, como aquelas obras que ali dentro permanecem, indiferentes ao que somos, ao número de olhos que por elas passaram.
E nós tão breves e tão pouco atentos a isso, como se a morte fosse uma coisa lateral, vista de soslaio, alguém incómodo numa sala demasiado cheia, e evitamo-la como se o simples gesto de a nomear a tornasse mais próxima.
E talvez por isso só em certos momentos de alegria, essa coisa instável que num dia de Agosto dentro de um museu pode ser areia molhada sob os pés de uma criança de sete ou oito anos, inclinada sobre a praia a escrever o próprio nome com o indicador, a desenhá-lo dentro de um coração para o fixar no mundo.
E para outros, a mesma ida ao museu é o contrário da alegria: um castigo, um frete do caraças que se arrasta e que pode parecer-nos uma onda maior, um tsunami que nos vai varrer a todos de uma vez. Mas mesmo essa ideia de interrupção trágica pode surgir misturada com a luz que entra no Prado e com a certeza de que há coisas que ficam quando nós não ficamos.
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