Professor francês inventou um prémio tipo Nobel que “dava para fazer um filme”

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Florent Montaclair era um desconhecido até receber, em Junho de 2016, a Medalha de Ouro de Filologia, atribuída pelo seu trabalho enquanto professor e investigador na área da Linguística. A cerimónia, organizada na Assembleia Nacional Francesa, contou com a presença de antigos vencedores do prémio Nobel, deputados e a comunidade académica por Montaclair ser o primeiro francês honrado com a distinção criada em 1967. Mas era tudo mentira.

A medalha seria atribuída pela Sociedade Internacional de Filologia, que dizia já ter premiado, entre outros, o filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016). Mas não só a tal sociedade não existe, como a universidade a que estaria ligada é uma pequena instituição digital, e a medalha foi comprada numa ourivesaria de Paris por 250 euros, revela agora a investigação judicial de que Montaclair está a ser alvo por utilização de documentos falsificados, usurpação de identidade e fraude.

“Um lençol de mentiras”, descreve o procurador Paul-Édouard Lallois do Ministério Público de Montbéliard, perto da fronteira com a Suíça, onde está a decorrer a investigação. “Foi tudo uma enorme farsa. Dava para fazer um filme ou uma série de televisão”, declarou ao The Guardian que dá conta do peculiar caso nesta quinta-feira.

O procurador explica que não é uma ilegalidade inventar um prémio que o próprio recebeu, mas pode ser um crime a forma como usou a falsa “honra” e um suposto “doutoramento” pela Faculdade de Filologia e Educação, em Delaware, nos EUA, para conseguir uma promoção e um aumento na carreira académica na Universidade de Marie e Louis Pasteur, em Besançon.

Montaclair é descrito como um professor discreto de Filologia, que tinha um fascínio por Júlio Verne e gostava de escrever livros de fantasia, particularmente histórias de vampiros, nos seus tempos livres. É casado com uma professora do ensino secundário, com quem tem duas filhas. Tudo mudou quando, em 2015, a imprensa local deu conta que ia ser o próximo vencedor do prémio, descrito como o “equivalente ao Nobel” na área da linguística.

O professor, então com 46 anos, ganhou nome e até deu uma palestra Tedx, onde anunciou que tinha estado envolvido na escolha do próximo vencedor Medalha de Ouro de Filologia: o norte-americano Noam Chomsky. Então com 87 anos, o filósofo viajou até Paris, onde recebeu o prémio em frente a 200 convidados.

Mas, em 2018, a fachada caiu. Quando o académico romeno Eugen Simion devia receber o prémio desse ano, os jornalistas do site Scena9 começaram a investigar mais sobre a Sociedade Internacional de Filologia, que perceberam estar ligada apenas a sites criados em França. “O falso prémio Nobel que enganou a Academia Romena”, escreviam então.

Montaclair nega acusações

O prémio pode ter caído por terra, mas foi nesse mesmo ano que Florent Montaclair pediu ao Ministério do Ensino Superior uma promoção, juntando ao pedido a prova do tal doutoramento. Apesar de não haver equivalência académica entre o ciclo de estudos nos EUA e um doutoramento em França, acabou por ser promovido.

Só em Fevereiro deste ano é que a polícia lhe bateu à porta e perguntou se sabia por que ali estava. “Acho que se trata da medalha”, respondeu às autoridades, confessando que tinha inventado o prémio. Contudo, nega qualquer má conduta no decorrer da sua carreira académica.

“Se ficar em casa com as suas pequenas medalhas em cima da lareira, não há consequências legais. Se, por outro lado, falar disso ao seu empregador, se falar disso aos meios de comunicação social e se tudo isto conduzir a algum reconhecimento profissional, então isso tem implicações concretas, e é aí que a noção de fraude pode começar a surgir”, defende o procurador Paul-Édouard Lallois.

E argumenta: “Todo este esquema permitiu-lhe alcançar um prestígio académico que não teria obtido se não fosse a criação e a cobertura mediática desta medalha.”

Por agora, enquanto decorre a investigação, Florent Montaclair está suspenso da universidade, refere o Le Monde, que falou com o advogado do professor. “Acreditou na sua própria mentira”, lamentou Jean-Baptiste Euvrard, acrescentando que Montaclair vai recorrer da suspensão e quer recuperar a sua carreira académica.

Não é só a carreira que pode estar em risco, mas a liberdade. Caso venha a ser acusado e condenado pela justiça, o professor poderá somar uma pena de cinco anos de prisão. “A questão é: por que razão este homem arriscou toda a sua carreira para fazer isto? É inteligente, culto e interessante. Só consigo imaginar que o tenha feito em troco de pouco de glória e reconhecimento por parte da comunidade académica”, termina o procurador.

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