Trocar de cérebro, precisa-se

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Querida Mãe,

Há dias que dava tudo para trocar de cérebro.

Gostava de não estar constantemente em sobressalto porque, de repente, lembrei-me do que deixei a meio porque, entretanto, me distrai com outra coisa qualquer, talvez a inventar uma nova música no piano.

Gostava de não perder tempo a fazer listas e horários sem fim, em pedaços de papel que depois perco, acabando por sobrepor actividades sem dar por nada, até ser tarde demais. De estar a pensar em mil ideias e projetos enquanto guio, mas paralisar quando chego a casa. De passar dias a tentar obrigar-me a completar tarefas simples como preencher um papel para o banco, mas que por alguma razão não consigo completar. E, pior que tudo, estou cansada de estar constantemente a zangar-me comigo mesma por tudo o que não fiz, não estou a fazer ou, até, pelo que já fiz mas que obviamente podia ter feito mais cedo!

Gostava de ter um cérebro organizado. Que se lembra das coisas. Que não salta o portão todos os santos dias porque me esqueci da chave. Eu sei… estamos na era dos diagnósticos, e se calhar tenho deficit de atenção, ou mais provavelmente sofro de deficit de sono crónico. Provavelmente ambas as coisas. Se calhar sou só desorganizada e distraída. Eventualmente o meu cérebro não é assim, mas está assim porque o sobrecarrego com coisas a mais. Provavelmente nasci assim, pelo menos a quantidade de telefones que perdi ao longo da vida e o facto de ser filha do meu pai apontam nesse sentido. Mas seja como for, às vezes (só as vezes), preferia ter um cérebro um pouco diferente.

Gosta do seu?


Querida Ana,

Eu gosto do teu! Aliás invejo-o. Não sei como é que os teus neurónios e sinapses se conectam, mas sugiro-te para cobaia num laboratório porque descobriam, de certeza, coisas fantásticas. Mas o que não dizes é que, na prática, as mães não têm apenas uma cabeça em cima dos ombros: são mais como uma Hidra, que na mitologia podiam ir de cinco a mais de cem.

Basicamente, uma cabeça por cada filho, quando não uma dedicada a “orientar” o marido, a que se somam a dos seus próprios pais e dos sogros, e da tia velhinha, ensanduichadas como andam entre gerações, sempre a apagar fogos. Sinceramente não sei quantas horas é que as Hidras dormiam, nem se tomavam suplementos de vitaminas e magnésio, mas reza a história que de cada vez que o Hércules lhe cortava uma cabeça, nasciam duas, o que é também mais ou menos o que acontece a qualquer mulher.

Espera, ainda não falámos no efeito das hormonas que ao longo do ciclo menstrual transformam o cérebro, levando-o a crescer e a diminuir, a acelerar as conexões ou a torná-las mais lentas, numa fase injetando-nos com a sensação de que somos invencíveis, para noutra — aquela em que me escreveste esta carta, quase que aposto — puxarem-nos para baixo, fazendo florescer a síndrome da impostora.

Tenho estado a ouvir no Spotify um podcast fabuloso da BBC, chamado “28ish”, da autoria da India Rakusen e fico de boca aberta ao perceber o quanto desconhecemos sobre o funcionamento do nosso próprio corpo. Vai ouvir porque tenho a certeza de que encontras lá uma explicação para o esquecimento da chave (e sim, já nasceste, a preferir saltar portões!), para o começar e não acabar as coisas (o pior é quando se deixa o banho a correr e só quando a água corre pelas escadas abaixo é que nos lembramos), e para tudo o resto.

Agora quanto à tua pergunta, se gosto do meu cérebro? Tem dias.


O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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